Para compreender plenamente essa passagem é necessário situá-la dentro do movimento narrativo do Evangelho de Marcos. Jesus encontra-se em Jerusalém, na fase final de sua missão pública. A cidade não é apenas um espaço geográfico. Ela concentra o coração simbólico, religioso e político de Israel. O Templo domina o horizonte espiritual da nação e representa o centro da vida religiosa. Ali convergem peregrinos vindos de toda a região, sacerdotes ligados ao culto, mestres da Lei responsáveis pela interpretação da Torá e autoridades vinculadas tanto ao poder religioso quanto ao poder político mediado pelo domínio romano.
Pouco antes do diálogo com o escriba, Jesus havia realizado um gesto profundamente profético ao expulsar os vendedores do Templo, denunciando a transformação da casa de oração em espaço de comércio e exploração, conforme Marcos 11,15-17. Citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, ele proclama que a casa de Deus deveria ser casa de oração para todos os povos, mas havia se tornado um covil de ladrões. Esse gesto não pode ser interpretado apenas como indignação moral diante do comércio religioso. Trata-se de uma denúncia contra um sistema que instrumentalizava a religião para manter estruturas de poder e exclusão. O gesto de Jesus insere-se na longa tradição profética de Israel, que continuamente recordava que o culto verdadeiro não pode ser separado da justiça.
A partir desse momento o Evangelho apresenta uma sequência de debates entre Jesus e diversos grupos religiosos. Fariseus e herodianos interrogam Jesus sobre o tributo a César em Marcos 12,13-17. Saduceus questionam a ressurreição dos mortos em Marcos 12,18-27. Esses diálogos revelam o clima de tensão teológica e política que envolve o ministério de Jesus em Jerusalém. Não são discussões abstratas. São disputas que tocam diretamente a forma de compreender Deus, a Lei, a autoridade religiosa e a própria organização da sociedade.
É nesse ambiente que surge a pergunta do escriba. O evangelista observa um detalhe significativo. O escriba percebeu que Jesus havia respondido bem às discussões anteriores. Esse detalhe sugere que sua pergunta não nasce necessariamente de hostilidade, mas de uma busca honesta por discernimento. No judaísmo do primeiro século existiam intensos debates sobre a interpretação da Lei. A tradição rabínica identificava 613 mandamentos presentes na Torá, entre prescrições positivas e negativas. Diante dessa multiplicidade de normas, muitos mestres procuravam compreender qual seria o princípio fundamental capaz de orientar toda a vida religiosa do povo.
Quando o escriba pergunta qual é o primeiro de todos os mandamentos, Jesus responde citando uma oração central da fé de Israel. “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”, conforme Deuteronômio 6,4. Essas palavras constituem o início do Shema Israel, oração que os judeus recitavam diariamente ao amanhecer e ao entardecer. Ela expressa a identidade espiritual de Israel como povo que reconhece o Deus único como fundamento de toda a existência. Essa confissão monoteísta não é apenas uma declaração teológica. Ela representa um chamado à fidelidade exclusiva a Deus em meio a um mundo onde diversos povos cultuavam múltiplas divindades ligadas ao poder, à fertilidade ou à guerra.
Logo em seguida Jesus continua citando Deuteronômio 6,5: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força”. Na antropologia bíblica essas expressões não indicam partes isoladas do ser humano, mas dimensões complementares de uma existência integral. Amar a Deus significa orientar toda a vida para Ele.
O coração, na linguagem bíblica, não é apenas o lugar das emoções. Ele representa o centro da consciência moral e da decisão humana. Provérbios 4,23 afirma que do coração brotam as fontes da vida. O coração é o espaço interior onde o ser humano escuta Deus e decide seus caminhos. Por isso o salmista suplica: “Cria em mim um coração puro, ó Deus”, conforme Salmo 51,12. O profeta Ezequiel anuncia uma promessa profundamente ligada a essa transformação interior quando transmite a palavra divina: “Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo”, conforme Ezequiel 36,26.
A alma, ou nefesh, refere-se ao sopro vital que anima a existência humana. O entendimento indica a dimensão da inteligência e do discernimento. A força remete às energias físicas, sociais e materiais que sustentam a vida cotidiana. Amar a Deus com todas essas dimensões significa reconhecer que a relação com o Criador não é apenas um sentimento religioso, mas uma orientação completa da existência.
Logo após citar esse mandamento, Jesus acrescenta outro que declara inseparável do primeiro. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, conforme Levítico 19,18. A originalidade da resposta de Jesus não está apenas em citar esses dois textos da Torá, mas em uni-los de forma indissolúvel. O amor a Deus e o amor ao próximo formam uma única realidade espiritual e ética.
Essa síntese percorre toda a Escritura. O apóstolo João afirma que quem diz amar a Deus mas odeia o irmão torna-se mentiroso, conforme 1 João 4,20. O apóstolo Paulo escreve que quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei, conforme Romanos 13,8. No hino ao amor presente em 1 Coríntios 13, Paulo afirma que mesmo os maiores dons espirituais perdem sentido se não forem acompanhados pelo amor. O escriba reconhece a profundidade dessa síntese e afirma que amar a Deus e ao próximo vale mais do que todos os sacrifícios e holocaustos. Essa resposta ecoa diretamente a tradição profética de Israel. Ao longo da história bíblica os profetas denunciaram repetidamente uma religião centrada em rituais enquanto ignorava a justiça social.
Em Oséias 6,6 Deus declara que deseja misericórdia e não sacrifícios. Em Isaías 1,11-17 o Senhor rejeita cultos vazios e convoca o povo a aprender a fazer o bem, buscar a justiça, socorrer o oprimido e defender o órfão e a viúva. Em Amós 5,24 o profeta proclama que o direito deve correr como água e a justiça como um rio que nunca seca. Em Miquéias 6,8 encontramos uma síntese admirável da espiritualidade bíblica quando o profeta afirma que Deus pede apenas que o ser humano pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com seu Deus. Quando Jesus afirma ao escriba que ele não está longe do Reino de Deus, revela algo essencial sobre a natureza do Reino. O Reino não é apenas uma realidade futura reservada ao fim dos tempos. Ele começa a germinar sempre que a vida humana se orienta pela lógica do amor, da justiça e da misericórdia.
Os evangelhos sinóticos apresentam essa tradição com nuances próprias. Em Mateus 22,34-40 Jesus declara que desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. Em Lucas 10,25-28 o diálogo conduz à parábola do bom samaritano. Nessa narrativa um estrangeiro, pertencente a um povo considerado impuro pelos judeus, torna-se exemplo de compaixão. Um sacerdote e um levita passam adiante diante do homem ferido na estrada. O samaritano, porém, aproxima-se, cuida das feridas e garante sua recuperação. A parábola amplia radicalmente o significado da palavra próximo. No contexto cultural do Mediterrâneo antigo, o termo próximo muitas vezes estava ligado ao pertencimento ao próprio grupo religioso ou étnico. A solidariedade era frequentemente delimitada por fronteiras de identidade. Jesus rompe essa lógica. O próximo não é apenas quem pertence ao mesmo povo, à mesma religião ou à mesma posição social. O próximo é qualquer pessoa cuja dor se cruza com nossa existência na estrada da história.
A ampliação da fraternidade proposta por Jesus encontra ecos também em diversas tradições éticas da humanidade. Dentro do judaísmo antigo, o rabino Hillel ensinava que a essência da Lei poderia ser resumida na regra de não fazer ao outro aquilo que não desejamos para nós. No mundo grego, pensadores estoicos defendiam a ideia de uma fraternidade universal baseada na razão comum que habita todos os seres humanos. No Oriente, tradições associadas a Confúcio também destacavam a benevolência e o respeito mútuo como fundamentos da ordem social. Esses paralelos revelam que a humanidade sempre buscou caminhos éticos baseados no respeito e na compaixão. No entanto, no ensinamento de Jesus essa ética encontra seu fundamento último na própria natureza de Deus.
Essa visão de forma aparece no Sermão da Montanha. Em Mateus 5,44-45 Jesus convida seus discípulos a amar os inimigos e rezar pelos perseguidores para se tornarem filhos do Pai celeste, pois Deus faz nascer o sol sobre bons e maus e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Aqui se revela a raiz teológica do amor ao próximo. Deus não distribui sua bondade apenas aos que pertencem a um grupo específico. A criação inteira participa da generosidade divina e esse horizonte transforma radicalmente a compreensão da vida social. Se Deus faz o sol nascer para todos, então nenhuma ideologia religiosa pode reivindicar monopólio da graça ou justificar exclusões baseadas em poder, riqueza ou identidade. O amor ao próximo torna-se expressão concreta da própria universalidade da misericórdia divina.
O contexto histórico da Palestina do primeiro século ilumina ainda mais a radicalidade desse ensinamento. A sociedade estava marcada por fortes desigualdades econômicas. Pequenas elites sacerdotais e aristocráticas concentravam riqueza e poder enquanto grande parte da população camponesa enfrentava pobreza crescente. O sistema de impostos imposto pelo domínio romano agravava ainda mais essa realidade. Nesse cenário o mandamento do amor ao próximo possuía implicações sociais profundas. Levítico 19, de onde Jesus cita esse mandamento, inclui orientações claras sobre justiça social. O texto ordena não explorar o trabalhador, não reter o salário do pobre, não cometer injustiça nos tribunais, não discriminar o estrangeiro e não oprimir o fraco. O amor ao próximo na tradição bíblica não é apenas sentimento interior. Ele se manifesta em práticas concretas de justiça. Essa preocupação aparece também em Deuteronômio 24,17-22, onde o povo é chamado a proteger o órfão, a viúva e o estrangeiro. Esses grupos representavam as categorias mais vulneráveis da sociedade antiga. Defender sua dignidade era sinal de fidelidade à aliança com Deus.
O impacto desse ensinamento. Nas sociedades antigas a solidariedade frequentemente se limitava ao próprio grupo. Identidade religiosa, étnica ou familiar definia quem era digno de cuidado. Ao afirmar que o próximo pode ser qualquer pessoa necessitada, Jesus rompe barreiras profundamente enraizadas. O ser humano busca sentido, pertencimento e reconhecimento. Quando a religião se transforma apenas em sistema de normas ou instrumento de controle social, ela pode gerar medo e alienação. O ensinamento de Jesus aponta para uma espiritualidade que integra interioridade e compromisso ético, contemplação e responsabilidade social.
Essa visão encontra eco em documentos importantes da Igreja contemporânea. O Concílio Vaticano II afirma em Gaudium et Spes 1 que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as da comunidade cristã. O mesmo documento afirma em Gaudium et Spes 27 que toda forma de injustiça social constitui ofensa ao Criador.
Na América Latina os documentos do CELAM aprofundaram essa dimensão social da fé. Medellín destacou que a evangelização exige compromisso com a libertação dos pobres. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres como exigência do Evangelho. Aparecida recorda que a fé cristã deve transformar estruturas injustas que produzem exclusão e sofrimento. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil também tem reiterado que o amor ao próximo exige compromisso com políticas públicas que promovam justiça social, dignidade humana e defesa da vida em todas as suas dimensões.
Nesse horizonte emerge o caráter profético do ensinamento de Jesus. Ao longo da história muitas vezes a religião foi instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Quando a fé é usada para justificar dominação, exclusão ou intolerância, o Evangelho é distorcido. Jesus já denunciava esse perigo ao criticar líderes religiosos que se preocupavam com minúcias rituais enquanto negligenciavam a justiça, a misericórdia e a fidelidade, conforme Mateus 23,23. Essa denúncia permanece atual quando discursos religiosos são utilizados para sustentar ideologias autoritárias, manipulações políticas ou projetos de dominação que esvaziam o Evangelho de sua força libertadora.
Algumas correntes contemporâneas, como a chamada teologia da prosperidade, reduzem a fé a promessa de sucesso econômico individual. Essa visão contrasta profundamente com o testemunho bíblico que apresenta Jesus identificando-se com os pobres, os pequenos e os excluídos, conforme Mateus 25,40. O Evangelho não promete prosperidade automática. Ele anuncia um Reino que coloca os pobres no centro da atenção divina.
Outro desafio é o clericalismo, quando a autoridade religiosa se transforma em poder distante do povo. O Concílio Vaticano II recorda que toda a Igreja é povo de Deus chamado ao serviço e à comunhão. A autoridade na comunidade cristã deve refletir o estilo de Jesus, que declarou ter vindo não para ser servido, mas para servir, conforme Marcos 10,45.
O Papa Francisco recorda na Evangelii Gaudium 188 que a fé autêntica implica um profundo desejo de transformar o mundo. Na encíclica Laudato Si 49 ele afirma que o clamor da terra e o clamor dos pobres formam um único clamor que sobe diante de Deus.
O mandamento do amor ao próximo continua desafiando os cristãos diante das feridas do mundo contemporâneo. Desigualdade social, violência urbana, exclusão econômica, migrações forçadas e crise ambiental revelam que a humanidade ainda luta para construir relações baseadas na justiça e na solidariedade.
A tradição espiritual da Igreja encontra no coração de Cristo um símbolo dessa síntese entre amor a Deus e amor à humanidade. O coração aberto de Jesus revela um amor que se entrega completamente. Em João 15,13 ele afirma que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos.
Assim a pergunta do escriba continua ecoando através dos séculos.
Qual é o maior mandamento?
A resposta de Jesus permanece clara e exigente: Amar a Deus com todo o coração e amar o próximo como a si mesmo.
Essa síntese não é apenas um princípio moral abstrato. Ela é um caminho concreto de transformação da história. O Reino de Deus começa a manifestar-se sempre que a lógica do amor substitui a lógica da violência, da exploração e da indiferença.
O Evangelho convida cada geração a redescobrir essa verdade fundamental. A verdadeira religião não consiste apenas em ritos ou discursos, mas em permitir que o amor de Deus transforme o coração humano e inspire novas relações sociais. Quando o coração humano se abre à compaixão divina, nasce uma nova forma de viver. Comunidades tornam-se espaços de solidariedade. A fé torna-se força de justiça. A esperança torna-se energia para transformar o mundo. Nesse caminho o ensinamento de Marcos 12,28b-34 continua iluminando a consciência humana. Ele recorda que toda a Lei e toda a revelação encontram sua plenitude no amor. Amar a Deus e amar o próximo é o coração do Evangelho e o caminho pelo qual o Reino de Deus começa a florescer na história.
DNonato - Teólogo do cotidiano

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