quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 6,7-13.

 

A Boa Nova proclamada por Marcos 6,7-13 é uma das passagens centrais para compreender a missão cristã e a identidade do discípulo. No Ano Litúrgico, ela é proclamada na quinta-feira da quarta semana do Tempo Comum, no ano par, e no décimo quinto Domingo do Tempo Comum, no ano B, sinalizando que a missão não é um evento isolado, mas atravessa o cotidiano, o culto e a vida da comunidade. A escolha de Marcos de situar o envio logo após a rejeição de Jesus em Nazaré não é casual; ela demonstra que a missão nasce da experiência do fracasso, da resistência e do sofrimento, e não do sucesso social ou do prestígio humano. A rejeição, longe de ser obstáculo, purifica a missão e reafirma que o Evangelho não depende da aceitação popular, mas da fidelidade ao Reino.

Jesus envia os discípulos dois a dois. Este gesto, carregado de simbolismo bíblico, revela que a missão é comunitária: uma só testemunha não basta (Dt 19,15). O discipulado não é projeto individual, mas relacional, e a fé não se exerce isoladamente. O Concílio Vaticano II afirma que Deus quis salvar a humanidade formando um povo, e não indivíduos isolados (Lumen Gentium, 9). Assim, a missão não é espetáculo de protagonismo individual, mas anúncio comunitário do Reino, construído na escuta mútua, na fraternidade e no serviço.

A autoridade que Jesus confere aos discípulos não é de poder, mas de libertação: autoridade sobre espíritos impuros e forças que oprimem (Mc 6,7-13; Lc 10,18). Na Escritura, esses espíritos simbolizam doenças, culpas, opressão social e estruturas que paralisam. Lucas apresenta a visão cósmica: “Eu vi Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10,18), indicando que a missão confronta forças que tentam aprisionar a liberdade humana. A missão não é conquista ou domínio; é libertação, sinalando que o Reino de Deus se estabelece na transformação concreta da vida das pessoas, e não no prestígio ou poder.

O despojamento pedido por Jesus nada de pão, sacola ou dinheiro, apenas cajado, sandálias e túnica  é expressão profética e pedagógica. Historicamente, Marcos escreve para comunidades pobres e perseguidas. O despojamento não é romantização da pobreza, mas demonstra que a missão se sustenta na Palavra de Deus, no Espírito e na fé, e não nos recursos humanos ou materiais. O cajado simboliza a Palavra, que guia e protege, enquanto as sandálias representam perseverança e constância, diferentes da pressa simbolizada no Êxodo (Ex 12,11). A missão não é espetáculo; é caminho. Filosoficamente, desafia o imediatismo; psicologicamente, confronta a ansiedade por resultados; espiritualmente, desapega da ilusão de medir o Reino por métricas humanas.

A permanência na casa que os acolhe revela uma espiritualidade de convivência, respeito e acolhimento. O sacudir a poeira dos pés (Mc 6,11) não é vingança, mas liberdade respeitada. Deus respeita a escolha do outro; a fé não se impõe. Esse princípio ressoa em Lucas 11,1-4, onde Jesus ensina a rezar antes de enviar os discípulos: o Pai-Nosso é pedagogia missionária. “Pai nosso” rompe o individualismo; “Venha o teu Reino” relativiza projetos de poder; “Dá-nos hoje o pão de cada dia” ecoa o maná que não podia ser guardado (Ex 16); “Perdoa-nos… assim como perdoamos” revela que missão e reconciliação caminham juntas. A oração é o solo da missão, lembrando que nenhum serviço é sustentável sem intimidade com Deus.

Os Evangelhos Sinóticos reafirmam e ampliam a instrução: Mateus 10 enfatiza despojamento, aviso contra perseguição e cuidado pastoral; Lucas 9 e 10 detalham dupla, comunidade e simplicidade; João 20,21 lembra: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”, revelando continuidade entre o envio de Jesus e a missão da Igreja. Atos dos Apóstolos apresenta a expansão missionária que respeita contextos culturais e sociais: Paulo e Barnabé (At 13-14) seguem o exemplo de caminhar de casa em casa, anunciando conversão, curando e adaptando a mensagem à realidade de cada povo, sempre dependentes do Espírito.

A tradição patrística denuncia alianças entre fé e poder: São João Crisóstomo critica pregadores ricos anunciando Cristo pobre; Santo Irineu afirma que a glória de Deus é o ser humano vivo, não subjugado; São Gregório Magno lembra que a palavra perde força quando a vida a contradiz. Desde o início, a Igreja entende que credibilidade se constrói no testemunho coerente, não no prestígio ou na aparência.

O Papa Leão XIV tem anunciado  a “espiritualidade de vitrine”, alertando para o risco de fé transformada em performance ou construção de imagem. A fé que busca likes, seguidores ou aprovação social não é missão, é espetáculo. Essa crítica dialoga com Marcos 6: a missão se faz na simplicidade e fidelidade, sem holofotes, sem mercantilização. A fé como mercadoria é um erro que sociologicamente reflete a sociedade do espetáculo, psicologicamente alimenta o narcisismo, teologicamente esvazia a cruz. O clericalismo midiático transforma líderes em protagonistas e comunidades em plateias, desviando o Evangelho do seu propósito central.

Os documentos do Vaticano II reforçam esse horizonte: a Igreja é sinal e instrumento da comunhão, comprometida com a dignidade humana e a justiça (Gaudium et Spes, 1). Evangelii Nuntiandi afirma que a evangelização não é mera comunicação de doutrina, mas anúncio vivo que envolve a vida concreta e social. O missionário deve ser profeta da Palavra, encarnado no mundo, atento aos pobres, à justiça e à solidariedade.

Dom Paulo Evaristo Arns cardeal arcebispo  de São  Paulo no tenpo da ditadura  militar  no Brasil e Desmond Tutu Arcebispo Anglicano na África  do sul no tempo  do aparthaide encarnaram esta profecia. Dom Paulo defendeu os pobres, denunciou a opressão e foi voz profética durante a ditadura, mostrando que fé e justiça não podem ser dissociadas. Tutu, anglicano, afirmou que neutralidade diante da injustiça é cumplicidade, e que a missão exige compromisso com a liberdade e dignidade de cada ser humano. Ambos demonstram que anunciar o Evangelho é posicionamento histórico.

O legado do Papa Francisco, mantém-se como orientação profética. Ele denunciou clericalismo, fé como mercadoria, fé individualista e espiritualidade de vitrine, hoje citada pelo Leão XIV, sublinhando que a Igreja deve sair às periferias, encontrar os pobres e promover fraternidade e justiça social (Evangelii Gaudium; Fratelli Tutti). A missão cristã exige encarnação, presença e coragem, não visibilidade ou poder.

O Antigo Testamento reforça essa dimensão: os profetas proclamavam justiça, libertação e cuidado pelos marginalizados. Isaías denuncia culto vazio (Is 29,13); Amós afirma que justiça deve fluir como rio perene (Am 5,24). Jeremias (7,5-7) insiste que adoração sem prática ética é inútil. O Novo Testamento complementa: Tiago insiste que fé sem obras é morta (Tg 2,17); João lembra que quem não ama o próximo não ama a Deus (1Jo 4,20). A missão é inseparável da justiça e do cuidado.

Atos dos Apóstolos e as cartas paulinas reiteram: missão é anúncio da conversão, solidariedade, cura, proximidade, liberdade. Paulo, mesmo preso, testemunha fidelidade e serviço (Fil 1,12-18). O envio missionário é contextual, relacional e dependente do Espírito, não do poder ou recursos humanos. A Boa Nova se espalha não por visibilidade, mas pela coerência, serviço e amor encarnado.

Marcos conclui dizendo que os discípulos partiram, anunciaram a conversão, expulsaram demônios e ungiram os doentes com óleo — sinais de cura, cuidado e presença do Espírito (Tg 5,14-15; Ex 30,22-25). A missão é encarnada, social e espiritual, tocando corpo, vida e história, mostrando que o Reino se manifesta em transformação concreta.. O Evangelho de Marcos, assim, permanece espelho incômodo: questiona segurança, prestígio, poder, espiritualidade de vitrine, clericalismo, individualismo e teologia da prosperidade. Jesus envia servidores, não conquistadores; irmãos e irmãs, não solitários; amor, não dominação. A missão começa na vida cotidiana, nas relações familiares, comunitárias e sociais, e exige desprendimento, fidelidade e coragem. Anunciar esta Boa Nova é resistir à fé como mercadoria, ao individualismo espiritual, à teologia do domínio e à espiritualidade de vitrine. Caminhar com pouco, confiando muito; crer que o Reino cresce silencioso e fecundo na vida concreta das pessoas e no cotidiano da história.

A Igreja, chamada a continuar este envio, é convocada a integrar Palavra, Espírito e comunidade, seguindo o exemplo de Jesus e dos profetas, da tradição patrística, do magistério do Vaticano II, do testemunho de Dom Paulo Evaristo Arns, Desmond Tutu e do legado do Papa Francisco. A missão é comunhão, serviço, coerência e coragem profética. A Boa Nova se cumpre onde a fé se encarna, respeita a liberdade e transforma a realidade, mostrando que o Reino de Deus é presença viva, libertadora e sustentável, construída na fraternidade e na justiça.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

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