Nesse mesmo horizonte nasce a memória mariana de Nossa Senhora da Luz, não como acréscimo devocional, mas como consequência teológica do próprio mistério celebrado. Maria é aquela que gera a Luz, caminha com a Luz e, sobretudo, entrega a Luz. Seu gesto no templo não é possessivo, mas oblativo. Ao apresentar o Filho, ela reconhece que Ele não lhe pertence, mas é dom para o mundo. Assim, a festa se revela simultaneamente cristológica, mariana e eclesial: Cristo é a Luz; Maria é a portadora obediente dessa Luz; e a Igreja é chamada a refleti-la nas zonas sombrias da história.
Não por acaso, este Evangelho retorna também na Festa da Sagrada Família e no 5º dia da Oitava do Natal. A liturgia insiste porque deseja educar o olhar da fé: o Menino do presépio não é apenas promessa doce, mas sinal de contradição. A apresentação no templo inaugura publicamente uma vida que será marcada por confronto, discernimento e entrega. O lugar escolhido não é neutro. O templo simboliza o coração religioso de Israel, mas também concentra poder, economia e controle simbólico. Ao levar Jesus a esse espaço, Lucas antecipa a tensão que atravessará todo o Evangelho: o Filho apresentado como oferta será o mesmo que denunciará o templo quando este se converter em mercado. A apresentação já contém, em germe, a purificação.
Maria e José cumprem tudo “conforme a Lei do Senhor” (Lc 2,23.39). O Messias não nasce à margem da tradição, mas dentro dela. A Lei não é negada, mas atravessada. Aqui ecoa a afirmação paulina de que Deus enviou seu Filho “nascido de mulher, nascido sob a Lei” (Gl 4,4). O símbolo da Lei cumprida revela que a fé bíblica não é ruptura irresponsável, mas transformação a partir de dentro. Ao mesmo tempo, a presença do Menino denuncia qualquer absolutização legalista que transforme a Lei em instrumento de exclusão, controle ou opressão.
O rito do primogênito apresentado, segundo Êxodo 13, carrega o símbolo da libertação. Todo primogênito pertence a Deus como memória viva do êxodo. Ao apresentar Jesus, Maria e José proclamam silenciosamente que este Menino é libertação encarnada. Mas a libertação que Ele traz não se dá pela força, nem pelo domínio, nem pela imposição religiosa. O primogênito apresentado será, mais tarde, o Filho entregue. Aqui se desfaz toda teologia do domínio que instrumentaliza Deus para legitimar projetos de poder.
O sacrifício oferecido — duas rolas ou dois pombinhos — revela a condição social da família e se torna símbolo teológico decisivo. É a oferta permitida aos pobres. O Salvador entra no templo não cercado de glória, mas pela via da precariedade. A salvação não se manifesta no excesso, mas na fidelidade humilde. Como recorda João Crisóstomo, Cristo não se cerca de esplendor para que ninguém confunda Deus com interesse. Este gesto desmonta, desde a origem, qualquer teologia da prosperidade que associe bênção a acúmulo, sucesso ou privilégio religioso.
Simeão encarna a espera amadurecida. Ele representa Israel fiel que não desistiu da promessa, mesmo quando a história parecia negá-la. “Esperava a consolação de Israel” — expressão profundamente enraizada nos cânticos do Segundo Isaías. A consolação, porém, não chega como restauração política imediata, mas como presença frágil de Deus nos braços de um idoso. Ao tomar o Menino, Simeão proclama que a salvação não é ideia abstrata, mas relação concreta. Seu cântico confessa que essa salvação é preparada “diante de todos os povos”, como luz que ilumina e revela. A luz não pertence a grupos, não legitima exclusões, não se deixa capturar por ideologias religiosas. Ela julga, desvela e liberta.
O símbolo da luz atravessa toda a Escritura: da criação à nova criação em Cristo. Luz é revelação, mas também confronto. Psicologicamente, integra e desvela as sombras; sociologicamente, denuncia estruturas injustas; teologicamente, desmascara espiritualidades que preferem a penumbra confortável da alienação. Por isso, Jesus será rejeitado: a luz incomoda quem se beneficia da escuridão.
Ana completa o quadro simbólico. Mulher, idosa, viúva, sem função institucional, ela representa a profecia que resiste à margem. Sua presença desmonta o clericalismo que monopoliza a voz de Deus e reduz a profecia à hierarquia. O Espírito fala onde quer. Ana é imagem de uma Igreja que persevera sem holofotes, que jejua não para barganhar, mas para manter o coração livre, e que anuncia porque não pode silenciar.
A palavra dirigida a Maria — a espada que atravessa a alma — revela que a luz não elimina a dor, mas a atravessa. Trata-se de uma espada de discernimento, que separa ilusões, purifica expectativas e impede uma fé infantilizada. Maria torna-se figura da Igreja que caminha na história sem negar o conflito, sem fugir da cruz, sem negociar a verdade.
Os paralelos bíblicos confirmam essa dinâmica: Mateus sublinha o cumprimento das promessas; João aprofunda o simbolismo da luz; Hebreus recorda que Cristo se fez semelhante aos irmãos em tudo. Não há redenção sem encarnação radical, sem assumir a condição humana concreta.
O Magistério da Igreja retoma essa intuição ao afirmar que o mistério do ser humano só se compreende à luz do Verbo encarnado (Gaudium et Spes, 22) e ao denunciar uma Igreja autorreferencial, mais preocupada com poder do que com o Evangelho (Evangelii Gaudium). Fratelli Tutti amplia o horizonte, lembrando que não existe luz espiritual autêntica sem compromisso com a fraternidade real e a dignidade dos últimos.
Celebrar a Apresentação do Senhor, Festa da Luz, é permitir que essa claridade atravesse nossas falsas seguranças religiosas, nossas teologias de mercado, nossas espiritualidades desencarnadas. É reconhecer que não somos donos da luz, mas seus servidores.Como Simeão, só encontramos paz quando reconhecemos a salvação fora dos privilégios. Como Maria, somos chamados a oferecer Cristo sem domesticá-lo. Como Ana, somos convidados a perseverar quando a profecia incomoda.
Que a luz que entrou no templo continue entrando em nossas casas, comunidades e estruturas. Não para nos confirmar, mas para nos converter. Não para nos tranquilizar, mas para nos comprometer. Porque a verdadeira luz não adormece consciências: ela as desperta.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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