O evangelista inicia o relato a partir da perturbação de Herodes Antipas diante da fama crescente de Jesus. A consciência inquieta do tetrarca é o primeiro símbolo a ser lido. Herodes interpreta os sinais do Reino não como boa notícia, mas como ameaça. Ele vê em Jesus o retorno de João, “ressuscitado dos mortos”, projeção de uma culpa que não encontra descanso. Aqui, Marcos nos insere num campo profundamente antropológico e psicológico: a verdade silenciada não desaparece; ela retorna como fantasma, como acusação interior. A consciência, quando violentada, não se cala. Essa dinâmica aparece já no Gênesis, quando Caim, após matar Abel, tenta seguir a vida normalmente, mas é interpelado por Deus: “Onde está teu irmão?” (Gn 4,9). A culpa não elaborada gera paranoia, medo, necessidade de controle. Herodes, como Caim, como Saul diante de Davi (1Sm 18), como Pilatos diante de Jesus (Mc 15,15), torna-se refém daquilo que tentou calar.
Marcos apresenta João como “homem justo e santo”, categorias que, no horizonte bíblico, não se reduzem à moral individual, mas indicam alguém alinhado com a justiça de Deus, com a fidelidade à Aliança. João é herdeiro direto da tradição profética de Elias (1Rs 18), de Amós (Am 5,21-24), de Isaías (Is 58), profetas que ousaram confrontar reis, sistemas econômicos e estruturas religiosas. A denúncia de João — “não te é permitido” — não é moralismo privado, mas afirmação pública de que nem mesmo o poder político está acima da Lei que protege a vida, a dignidade e as relações justas. A exegese do texto mostra que a prisão de João não se dá por um crime, mas por sua palavra. É a palavra que incomoda, que desestabiliza, que ameaça alianças espúrias entre poder político, econômico e religioso.
O cenário do banquete é carregado de simbolismo. Na tradição bíblica, o banquete pode ser imagem do Reino (Is 25,6; Mt 22,1-14), mas aqui ele se transforma em paródia. É um banquete de morte, não de comunhão; de ostentação, não de partilha. Herodes reúne os “grandes da corte”, os oficiais, os poderosos da Galileia. A sociologia do poder se revela com clareza: trata-se de um espaço masculino, elitizado, onde alianças são reafirmadas, onde corpos são usados como moeda simbólica. A dança da filha de Herodíades não é descrita em detalhes, mas sua função narrativa é clara: o corpo feminino é instrumentalizado para manter o jogo de poder masculino. A promessa exagerada de Herodes — “até a metade do meu reino” — ecoa Ester 5,3, mas aqui sem nobreza alguma, revelando a teatralidade vazia de um poder que promete o que não pode dar.
O juramento é outro elemento simbólico decisivo. Na tradição bíblica, o juramento envolve responsabilidade diante de Deus (Dt 23,22). Jesus, mais tarde, denunciará o uso manipulador dos juramentos (Mt 5,33-37). Herodes se torna prisioneiro de sua própria palavra, não por fidelidade, mas por vaidade. O respeito e status humano emerge com força: o medo do ridículo, da perda da posição, da quebra da imagem pública pesa mais do que a vida de um inocente. Quantos sistemas injustos continuam operando porque alguém, em algum nível, “não pode voltar atrás” diante dos convidados, do mercado, dos eleitores, da hierarquia? As escolhas contemporâneas reconhece aqui o mecanismo da conformidade social. Nos tempos atuais os indivíduos compactuam com as injustiças para não romper com o grupo.
A figura de Herodíades, por sua vez, não deve ser lida apenas como vilã moral, mas como expressão de um ressentimento que se estrutura quando a verdade ameaça privilégios. Ela guarda rancor porque João nomeou aquilo que todos sabiam, mas preferiam não dizer. O ódio à profecia nasce da recusa em se converter. Esse padrão se repete ao longo da Escritura: Jezabel persegue Elias (1Rs 19), os líderes religiosos tramam contra Jeremias (Jr 26), os fariseus planejam a morte de Jesus após a ressurreição de Lázaro (Jo 11,53). A verdade não mata por si mesma; ela é morta por quem não quer perder poder.
A decapitação de João no cárcere, longe do banquete, longe da multidão, carrega um forte valor simbólico. A cabeça, na antropologia bíblica, representa a identidade, a palavra, a orientação. Cortar a cabeça é tentar silenciar definitivamente a voz. No entanto, Marcos sugere o contrário: a morte de João amplia sua voz, pois ela se mistura agora à missão de Jesus. Os discípulos de João recolhem o corpo, gesto que ecoa o cuidado com os mortos justos (Tb 1,17) e antecipa o cuidado com o corpo de Jesus no sepulcro (Mc 15,46). A história da salvação não é interrompida pela violência; ela passa pela cruz.
A hermenêutica deste texto, proclamado no Tempo Comum, desmascara a tentação de uma fé domesticada, confortável, adaptada ao sistema. Aqui se impõe uma crítica direta às teologias da prosperidade e do domínio, que associam bênção à riqueza, sucesso e poder. João é fiel e termina decapitado; Jesus é o Filho amado e termina crucificado. Não há, no Evangelho, promessa de imunidade ao sofrimento para quem vive a verdade. Ao contrário, há advertência clara: “Se me perseguiram, também perseguirão vocês” (Jo 15,20). A fé como mercadoria, vendida como caminho de ascensão individual, não resiste a Marcos 6. O Evangelho não é produto que garante status; é caminho que exige coerência, risco e, muitas vezes, conflito.
Também o individualismo religioso é confrontado. João não denuncia por gosto pessoal ou por rigidez moral, mas por responsabilidade comunitária. O pecado do rei não é apenas privado; ele afeta o povo, legitima abusos, corrompe relações. A teologia bíblica nunca separa ética pessoal de justiça social. Por isso, a crítica profética não pode ser reduzida a opinião individual. Ela nasce da escuta de Deus e do compromisso com a vida do povo.
Sempre que a autoridade religiosa se alia ao poder político para manter privilégios, sempre que silencia profetas em nome da ordem ou da imagem institucional, ela repete, de outra forma, o banquete de Herodes. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus peregrino, chamado a ler os sinais dos tempos e a se colocar ao lado da dignidade humana ferida. A verdade não pertence à hierarquia como propriedade; ela é serviço. O Vaticano I, ao refletir sobre a autoridade e a verdade, jamais a desvincula da consciência iluminada pela razão e pela fé. Quando a autoridade teme a verdade, ela se esvazia.
Marcos 6,14-29, lido à luz dos sinóticos, aprofunda ainda mais esse horizonte. Mateus 14 destaca o medo de Herodes diante do povo; Lucas 9 sublinha a perplexidade do governante. Em todos, o poder aparece como instável, inseguro, dependente da aprovação alheia. Em contraste, a liberdade interior do profeta se impõe. João está preso, mas é livre; Herodes está no palácio, mas é escravo. Essa inversão é profundamente filosófica e teológica: a verdadeira liberdade não é ausência de limites, mas fidelidade à verdade reconhecida.
Assim, este texto proclamado na liturgia da sexta-feira da 4ª semana do Tempo Comum no par, não nos permite neutralidade. O texto faz uma pergunta à Igreja, às comunidades, aos ministros ordenados e aos leigos:
- A quem estamos dispostos a desagradar para sermos fiéis ao Evangelho?
- Que verdades temos preferido calar para preservar banquetes, alianças e reputações?
João Batista continua sendo degolado sempre que a profecia é silenciada, sempre que a fé se torna mercadoria, sempre que o Evangelho é reduzido a instrumento de poder. Mas também continua vivo sempre que alguém, mesmo embaraçado, escolhe a verdade e se converte. É nesse confronto que o Reino de Deus avança, não com aplausos, mas com fidelidade.
Essa fidelidade, porém, não pode ser romantizada. Marcos não escreve uma hagiografia edulcorada de João Batista, mas uma narrativa crua, que expõe os custos reais da palavra profética. O texto exige que nos aprofundemos no contexto histórico-político da Galileia do século I. Herodes Antipas não era rei por direito próprio, mas um governante dependente de Roma, submetido ao poder imperial e, ao mesmo tempo, obrigado a manter uma imagem de autoridade diante do povo judeu. Essa condição híbrida — politicamente frágil e simbolicamente autoritária, ajuda a compreender sua instabilidade psicológica. A história mostra que regimes dependentes tendem a ser mais violentos internamente, pois precisam compensar sua falta de legitimidade com demonstrações públicas de força. João Batista, ao denunciar o casamento ilegal de Herodes, não afronta apenas uma questão moral privada, mas desvela a ilegitimidade estrutural de um poder que se sustenta na violação da Lei.
A Lei, aqui, deve ser compreendida em sua dimensão teológica e antropológica. A Torá não é um conjunto arbitrário de normas, mas um projeto de vida que organiza relações, protege os vulneráveis e impede que o desejo do mais forte se imponha como regra. Ao dizer “não te é permitido”, João se insere na tradição de Levítico 18,16 e 20,21, textos que visam preservar a dignidade dos vínculos familiares e impedir a instrumentalização das pessoas. A exegese revela que João não cria uma nova moral; ele recorda uma memória esquecida. Toda profecia nasce dessa recordação incômoda: lembrar ao poder aquilo que ele preferiu apagar.
Esse mecanismo de esquecimento deliberado é amplamente estudado pela sociologia e pela filosofia política. Ao refletirmos sobre a banalidade do mal, mostra como grandes injustiças se tornam possíveis não apenas por ódio consciente, mas por conformismo, burocracia e desejo de pertencimento. Herodes não é um monstro isolado; ele é o produto de um sistema que normaliza a violência quando ela protege interesses. Marcos, com sutileza literária, constrói Herodes como alguém que “gostava de ouvir João”. Essa ambiguidade é devastadora: o problema não é a ignorância, mas a dissociação entre escuta e conversão. Trata-se de uma fé estética, curiosa, que consome a palavra como espetáculo, mas se recusa a deixá-la transformar a vida.
Aqui o texto toca diretamente a realidade contemporânea da fé como entretenimento. .
- Quantos “ouvem” profetas, teólogos, pregadores, lives e homilias, mas permanecem estruturalmente intocados?
A crítica à fé como mercadoria emerge com força: quando a palavra de Deus é consumida como conteúdo, ela perde seu caráter performativo, isto é, sua capacidade de gerar decisão, ruptura e mudança de rota. A teologia da prosperidade se alimenta exatamente dessa lógica: ouvir para se sentir bem, é algo emocional, não para serve para converter. João Batista não oferece promessa de sucesso; ele oferece confronto. Por isso é eliminado.
O banquete de Herodes, ampliado simbolicamente, pode ser lido como imagem de uma sociedade da abundância excludente. Enquanto poucos comem, bebem e se divertem, a verdade está encarcerada e a maioria permanece invisível. Amós já havia denunciado banquetes semelhantes: “Deitam-se em leitos de marfim, comem cordeiros do rebanho… mas não se afligem com a ruína de José” (Am 6,4-6). Marcos reinscreve essa denúncia no contexto romano-judaico, mostrando que a lógica da opressão se repete com novas roupas. O Reino de Deus, anunciado por Jesus logo em seguida, não se confunde com esses banquetes; ele acontece nas mesas dos pobres, dos pecadores, dos excluídos.
A dança da jovem, revela outro nível de violência simbólica. O corpo feminino, silencioso no texto, torna-se instrumento de negociação entre adultos. Não se trata apenas de sedução, mas de objetificação. A tradição bíblica conhece bem esse tipo de exploração, denunciada nos relatos de Tamar (2Sm 13) e da concubina do levita (Jz 19). Marcos não precisa fazer discurso; basta narrar. A cabeça de João servida num prato sela a lógica: corpos são usados, descartados, trocados. O Evangelho, ao expor essa dinâmica, desautoriza qualquer leitura espiritualizante que ignore as dimensões sociais e de gênero da violência.
A morte de João, sob o ponto de vista teológico, inaugura uma escatologia do testemunho. Ele morre antes de ver a plenitude do Reino, assim como Moisés morre antes de entrar na terra prometida (Dt 34). Ambos apontam caminhos que outros percorrerão. A fidelidade não garante resultados imediatos; ela garante sentido. Essa é uma crítica frontal às teologias do resultado, do sucesso mensurável, do crescimento numérico como critério de bênção. O Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que a Igreja caminha entre perseguições do mundo e consolações de Deus, e que seu êxito não se mede pelos critérios do mercado ou do poder.
O paralelismo entre João e Jesus se aprofunda quando observamos que ambos são entregues por autoridades fracas, ambos são mortos para preservar a ordem religiosa-politica-moral, um Deus-Patria-Familia primitivo. tanto João como Jesus são vítimas de alianças entre poder político e conveniência religiosa. Pilatos, como Herodes, reconhece a inocência, mas lava as mãos. A psicologia do poder revela aqui um padrão recorrente: a transferência de responsabilidade:
- “Não fui eu”
- “o sistema exigiu”
- “não havia alternativa”
- Eu não queria isso
O Evangelho desmonta essa desculpa ao mostrar que sempre há escolha, ainda que custosa.
No horizonte eclesial, este texto interroga o clericalismo não apenas como abuso de poder, mas como medo da profecia. Sempre que a Igreja prefere o silêncio confortável à palavra incômoda, ela se aproxima mais do palácio de Herodes do que do deserto de João. O Vaticano I, ao afirmar a racionalidade da fé, jamais autorizou a submissão acrítica da consciência. O Vaticano II reforça que todos os batizados participam da função profética de Cristo. Silenciar essa dimensão é mutilar a identidade cristã.
O texto conduz, portanto, a uma conclusão que não fecha, mas abre. Marcos 6,14-29 não é apenas memória de um martírio passado; é critério permanente de discernimento. Onde estão hoje os cárceres da verdade? Quais banquetes continuam sendo mantidos à custa de silêncios cúmplices? Quem são os João Batista que ainda incomodam porque se recusam a negociar a palavra? A liturgia, ao proclamar este Evangelho numa sexta-feira do Tempo Comum, lembra que a fidelidade não é exceção heroica, mas vocação cotidiana. O Reino de Deus continua avançando não pela força, nem pelo espetáculo, nem pela mercantilização da fé, mas pela coragem silenciosa de quem prefere perder a cabeça a perder a verdade.
Para que essa afirmação não permaneça apenas no plano retórico, é necessário inserir explicitamente este texto no coração da tradição viva da Igreja. Marcos 6,14-29 não é um corpo estranho dentro da fé católica, mas um de seus critérios de autenticidade. A Dei Verbum recorda que a Revelação não é simples acúmulo de informações sagradas, mas comunicação de Deus na história, acolhida pela Igreja na escuta obediente da Palavra (DV 2). João Batista encarna essa escuta que se torna palavra pública, mesmo quando o preço é a própria vida. A Palavra de Deus, afirma o Concílio, cresce com quem a escuta e a vive; ela não cresce com quem a administra como objeto de controle.
Nesse sentido, a Lumen Gentium é decisiva ao afirmar que todo o Povo de Deus participa da missão profética de Cristo (LG 12). João não fala porque ocupa um cargo, mas porque foi chamado. Sua autoridade não vem do templo nem do palácio, mas do deserto, lugar bíblico da verdade despojada. O clericalismo, denunciado reiteradamente pelo Papa Francisco, nasce exatamente da tentativa de substituir essa autoridade do testemunho por uma autoridade de função. Quando o ministério se distancia da profecia, ele se aproxima perigosamente do banquete de Herodes.
A Gaudium et Spes aprofunda ainda mais essa leitura ao afirmar que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos pobres são também as da Igreja (GS 1). João Batista não denuncia Herodes em nome de uma moral abstrata, mas em nome de um povo ferido por um poder que se considera acima da Lei. A Igreja, quando permanece fiel ao Evangelho, não pode se eximir dessa mesma responsabilidade histórica. Por isso o Concílio rejeita qualquer separação entre fé e vida, entre culto e justiça, denunciando como incoerente uma religião que não se deixa interpelar pelas estruturas sociais e políticas.
O Vaticano I, frequentemente reduzido à questão da autoridade, oferece aqui uma chave esquecida. Ao afirmar que fé e razão não se contradizem, o Concílio reconhece o papel da consciência moral iluminada pela verdade. Herodes age contra a razão e contra a fé, não por ignorância, mas por submissão ao olhar dos outros. O drama de Marcos 6 é também o drama de uma consciência que abdica de si mesma. A tradição católica jamais canonizou essa abdicação.
Outros concílios da Igreja ecoam essa mesma tensão profética. O Concílio de Niceia, ao defender a verdade cristológica contra o poder imperial, mostrou que a fé não pode ser moldada pela conveniência política. O Concílio de Trento, ao promover reforma interna, reconheceu que o maior escândalo da Igreja nasce quando seus próprios ministros se afastam da coerência evangélica. O Vaticano II retoma esse fio, não como ruptura, mas como retorno às fontes, lembrando que a Igreja se purifica continuamente na escuta da Palavra e na conversão de suas estruturas.
Papa Francisco se inserem aqui não como ornamento, mas como atualização pastoral dessa tradição. Em Evangelii Gaudium, ele afirma que prefere uma Igreja acidentada por sair às periferias a uma Igreja doente pelo fechamento e pela autopreservação. João Batista é exatamente essa figura acidentada, descartável aos olhos do poder, mas indispensável aos olhos de Deus. Em Fratelli Tutti, Francisco denuncia as novas formas de banquetes fechados, nos quais poucos decidem e muitos pagam o preço. Herodes não é apenas personagem antigo; ele ressurge sempre que a fraternidade é sacrificada em nome da manutenção do poder.
Marcos 6,14-29 permanece, portanto, como uma lâmina afiada na história da Igreja. Não permite neutralidade, nem acomodação, nem espiritualidade inofensiva. Obriga a escolher entre o deserto e o palácio, entre a palavra que liberta e o silêncio que preserva privilégios, entre a fidelidade que custa caro e a conveniência que mata lentamente. A liturgia, ao proclamar este Evangelho numa sexta-feira do Tempo Comum, recorda que a profecia não é exceção heroica reservada a alguns, mas dimensão constitutiva da fé cristã. Entre a palavra que liberta e o silêncio que preserva privilégios, entre a fidelidade que custa caro e a conveniência que mata lentamente. A liturgia, ao proclamar este Evangelho numa sexta-feira do Tempo Comum, recorda que a profecia não é exceção heroica reservada a alguns, mas dimensão constitutiva da fé cristã.
Nesse horizonte, a narrativa de Marcos não se encerra no martírio, mas se abre como critério permanente de discernimento e conversão. A Palavra degolada continua falando; a verdade silenciada continua retornando, inquietando consciências, desmascarando pactos, perturbando banquetes. O Reino de Deus avança não pelo espetáculo, nem pela força, nem pela mercantilização da fé, mas pela fidelidade cotidiana de homens e mulheres que preferem perder segurança, prestígio ou posição a negociar a verdade que receberam.
Sempre que a Igreja se esquece disso, ela se aproxima do banquete de Herodes; sempre que se lembra, mesmo ferida e minoritária, ela se reencontra com João Batista e, nele, com o próprio Cristo. Porque o Evangelho não promete cabeças preservadas, mas consciências livres; não garante aplausos, mas verdade; não oferece tronos, mas cruz. E é exatamente aí, onde o mundo enxerga fracasso, que o Reino de Deus continua, silenciosa e inexoravelmente, a avançar.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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