Marcos escreve para comunidades pequenas, frágeis, socialmente irrelevantes, marcadas pela perseguição e pela sensação de insignificância histórica. Não são comunidades triunfantes nem hegemônicas; são grupos que vivem à margem do Império, tentando discernir se a fé em Jesus crucificado faz sentido num mundo estruturado pela força, pela dominação e pela violência. Nesse contexto, o Evangelho não sustenta essas comunidades com promessas de crescimento numérico ou prestígio social, mas com a confiança de que Deus age silenciosamente na história, mesmo quando tudo parece imóvel. O Reino anunciado por Jesus não coincide com o imaginário messiânico dominante nem com os projetos religiosos de poder; ele nasce pequeno, cresce escondido e amadurece no tempo de Deus. A parábola da semente lançada na terra remete ao gesto primordial de Deus que planta a vida no caos e confia à criação uma fecundidade própria. O eco de Gênesis é evidente: “Que a terra produza vegetação” (Gn 1,11-12). O ser humano, colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2,15), não é dono da vida, mas cooperador. Exegeticamente, quando Marcos afirma que a terra produz fruto “por si mesma”, não exclui Deus do processo, mas reconhece uma lógica divina inscrita na criação, que precede e excede o controle humano. A sabedoria bíblica sempre advertiu contra a ilusão do domínio: “Muitos são os projetos do coração humano, mas o desígnio do Senhor permanece” (Pr 19,21).
O semeador não controla o crescimento. Ele semeia e retorna à normalidade da vida: dorme, acorda, atravessa o tempo. Essa imagem desmonta toda espiritualidade baseada na ansiedade, na performance religiosa e no controle dos resultados. Marcos, em contraste com Mateus e Lucas, radicaliza essa afirmação. Em Mateus 13, a fecundidade está associada à escuta perseverante; em Lucas 8, ao coração que guarda a Palavra com constância. Marcos, porém, afirma que o Reino cresce mesmo além da consciência do semeador. O crescimento não depende da eficiência humana, mas da fidelidade ao gesto inicial de semear. Essa lógica encontra profundo eco na tradição profética. Isaías descreve a Palavra como chuva que fecunda a terra e não retorna vazia (Is 55,10-11). Jeremias compara o justo a uma árvore plantada junto às águas, que não teme o tempo da seca (Jr 17,7-8). O Salmo 65 celebra o cuidado de Deus que visita a terra e a faz transbordar de vida. Jesus retoma essa tradição e a desloca do campo da expectativa futura para o interior da história presente. O Reino não é apenas promessa escatológica; ele já atua, ainda que de modo discreto e muitas vezes imperceptível.
O crescimento gradual — primeiro o broto, depois a espiga, depois o grão cheio — revela uma pedagogia divina que respeita processos. Aqui o texto dialoga profundamente com a experiência humana. A psicologia reconhece que o amadurecimento saudável exige tempo, elaboração de conflitos e atravessamento da fragilidade. A fé não foge dessa dinâmica. Por isso, a parábola liberta o discípulo da culpa por não corresponder a modelos idealizados de santidade imediata e denuncia discursos religiosos que exigem produtividade espiritual contínua, ignorando a condição humana. Quando Jesus fala da colheita, introduz a dimensão escatológica sem recorrer ao medo. O juízo aparece como revelação da verdade que amadureceu ao longo da história. Joel fala do tempo em que a foice é lançada porque a colheita chegou (Jl 4,13). Mateus retoma essa lógica na parábola do joio e do trigo, onde a separação só ocorre no tempo oportuno (Mt 13,24-30). Lucas fala do tempo da visitação de Deus (Lc 19,44). O juízo não é punição arbitrária, mas desvelamento do que foi gestado no silêncio.
Paulo aprofunda essa compreensão ao afirmar que cada um colherá o que tiver semeado (Gl 6,7-9) e que o crescimento pertence a Deus (1Cor 3,6-7). A história, portanto, não caminha para o vazio, mas para uma plenitude que não pode ser forçada nem antecipada. Essa visão confronta diretamente as teologias da prosperidade e do domínio, que prometem colheitas imediatas, sucesso visível e ascensão social como sinais da bênção divina. O Evangelho insiste que o Reino cresce na fidelidade cotidiana e muitas vezes na contradição.
A parábola do grão de mostarda aprofunda ainda mais essa inversão simbólica. O que começa pequeno torna-se espaço de abrigo. A imagem dialoga com Ezequiel 17,22-24 e com Daniel 4, onde a árvore abriga povos e nações. Jesus, porém, redefine o símbolo: o Reino não é império que domina, mas comunidade que acolhe. As aves que repousam nos ramos evocam hospitalidade, cuidado e proteção, em contraste com sistemas que exploram e descartam vidas. Essa imagem ganha força quando confrontada com a realidade contemporânea. Vivemos sob a lógica da aceleração, do desempenho e da competição permanente. Também o campo religioso sofre essa pressão, transformando a fé em produto, a espiritualidade em técnica e a missão em marketing. Marcos 4 desautoriza essa lógica ao afirmar que o Reino não cresce pela visibilidade, mas pela fidelidade ao pequeno e ao cotidiano.
É preciso lembrar ao padres e pastores e demais clérigos que o semeador não é dono do crescimento. Quando lideranças religiosas se colocam como mediadoras absolutas da graça ou administradoras exclusivas do Reino, negam o núcleo da parábola. Jesus afirma que autoridade, entre seus discípulos, significa serviço (Mc 10,42-45). Pedro exorta os presbíteros a apascentarem sem dominar (1Pd 5,2-3). O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus em caminho (Lumen Gentium, 9).
Santo Irineu de Lyon afirmava que a glória de Deus é o ser humano vivo, cuja plenitude se constrói no tempo. Agostinho lembrava que Deus age na história sem violentar a liberdade humana. Gregório de Nissa falava do crescimento espiritual como um movimento contínuo em direção a Deus, sem esgotamento do mistério. O Reino cresce, portanto, também no interior da pessoa, como processo de conversão permanente. Essa compreensão do Reino exige uma releitura radical da noção de tempo. O tempo bíblico não se reduz ao chronos mensurável e produtivista, mas se abre ao kairós, o tempo oportuno de Deus. O Eclesiastes lembra que há um tempo para cada coisa (Ecl 3,1), e Habacuque afirma que a visão não falhará, ainda que pareça tardar (Hab 2,3). Esperar, nesse horizonte, não é passividade, mas fidelidade perseverante. Do ponto de vista histórico e sociológico, essa lógica revela que transformações profundas amadurecem no subsolo da história antes de se tornarem visíveis. O Evangelho reconhece essa dinâmica e a inscreve no horizonte teológico. O Reino cresce como fermento escondido na massa (Mt 13,33), transformando por dentro estruturas marcadas pela desigualdade e pela exclusão.
Por isso, Marcos 4 também denuncia uma fé individualista e desencarnada. A semente é lançada num campo comum. O Reino tem dimensão comunitária e histórica. A fé que não se traduz em relações justas e compromisso com os vulneráveis contradiz o Evangelho. Tiago é incisivo ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tg 2,17).
Esse texto oferece, enfim, profundo consolo espiritual. Ele fala a quem semeia no anonimato, a quem vive a fidelidade cotidiana sem reconhecimento, a quem experimenta o cansaço e a sensação de inutilidade. O Salmo 126 recorda que os que semeiam entre lágrimas colherão com alegria. A esperança cristã não é ingenuidade, mas confiança de que Deus permanece fiel à sua promessa. Ao proclamar Marcos 4,26-34 no 11º Domingo do Tempo Comum – Ano B e na sexta-feira da 3ª semana do Tempo Comum nos anos pares, a liturgia convida a Igreja a reencontrar sua identidade mais profunda. Essa proclamação acontece dentro de um conjunto mais amplo de leituras que, na tradição litúrgica, reforçam a pedagogia do pequeno, do processo e da confiança. No 11º Domingo do Tempo Comum – Ano B, a primeira leitura é retirada de Ezequiel 17,22-24, onde Deus promete plantar um ramo pequeno que se tornará árvore frondosa. O Salmo responsorial proclama que é bom louvar o Senhor porque o justo cresce como a palmeira e se desenvolve como o cedro do Líbano (Sl 92). A segunda leitura, de 2Coríntios 5,6-10, afirma que caminhamos pela fé e não pela visão. O conjunto das leituras cria um campo hermenêutico coerente: o Reino cresce no oculto, sustenta-se pela confiança e não se mede por critérios imediatos.
Também na liturgia ferial da sexta-feira da 3ª semana do Tempo Comum, nos anos pares, Marcos 4,26-34 dialoga com leituras que reforçam a paciência histórica e a fidelidade cotidiana. A Palavra proclamada nesse dia insere o fiel no ritmo ordinário do Tempo Comum, recordando que a ação de Deus não se limita aos grandes momentos litúrgicos, mas se manifesta na perseverança silenciosa da vida diária. A repetição desse Evangelho ao longo do ano litúrgico revela sua centralidade na compreensão cristã do Reino.
O contexto histórico do texto remete à Palestina do século I, marcada por forte desigualdade social, exploração agrícola, cobrança de impostos abusivos e concentração de terras. A maioria dos ouvintes de Jesus era formada por camponeses que conheciam bem o ritmo da semeadura, a espera angustiada pela chuva e a insegurança da colheita. Falar de sementes, terra e crescimento não era recurso poético abstrato, mas linguagem profundamente encarnada. Jesus não idealiza o campo; Ele fala a partir da experiência concreta de um povo vulnerável, submetido ao poder romano e às elites religiosas locais. Nesse contexto, a imagem de um Reino que cresce sem violência e sem espetáculo constitui uma crítica implícita tanto ao Império Romano quanto às expectativas messiânicas de cunho nacionalista e militar. Enquanto o Império se expandia pela força e pela imposição, Jesus anuncia um Reino que cresce como semente, sem exércitos, sem propaganda e sem coerção. Essa contraposição atravessa todo o Evangelho de Marcos, que apresenta um Messias rejeitado, incompreendido e crucificado.
Outros textos bíblicos retomam imagens semelhantes para falar da ação discreta de Deus na história. O profeta Oséias compara a fidelidade divina ao orvalho que faz brotar a vida (Os 14,6). Zacarias fala de não desprezar o dia das pequenas coisas (Zc 4,10). O Salmo 127 recorda que, se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalham os construtores. No Novo Testamento, Jesus utiliza imagens afins ao falar do fermento escondido na massa (Mt 13,33), do grão de trigo que precisa morrer para dar fruto (Jo 12,24) e da videira e dos ramos, onde a fecundidade depende da permanência e não da agitação (Jo 15,1-8).
A tradição paulina reforça essa mesma lógica. Em Romanos 8, Paulo descreve a criação inteira como que gemendo em dores de parto, aguardando a plenitude que ainda não se manifestou plenamente. Em Filipenses 1,6, ele afirma confiar que aquele que começou a boa obra a levará a termo. A história da salvação, portanto, é marcada por processos, não por atalhos. Ao ser proclamado hoje, esse texto encontra uma realidade marcada por crises múltiplas: crise ecológica, social, política, econômica e também religiosa. A lógica do imediato, do consumo e da visibilidade colonizou não apenas a sociedade, mas também muitas expressões de fé. Igrejas competem por fiéis, líderes disputam influência, e a linguagem religiosa é frequentemente instrumentalizada para legitimar projetos de poder, exclusão e violência simbólica. Nesse cenário, Marcos 4,26-34 ressoa como palavra profundamente contracultural.
A parábola questiona frontalmente a teologia da prosperidade, que associa a bênção de Deus ao sucesso material e à ascensão social. Questiona também a teologia do domínio, que legitima a ocupação de espaços de poder em nome de Deus. Ambas reduzem o Reino a um projeto humano e traem o Evangelho. Jesus nunca prometeu visibilidade, prestígio ou imunidade ao sofrimento; prometeu, sim, a presença fiel de Deus no meio da história.
O texto também interpela a Igreja em sua configuração atual. Em tempos de clericalismo persistente, de centralização excessiva e de autorreferencialidade, a parábola recorda que o crescimento do Reino não depende do controle institucional, mas da ação livre do Espírito. O Concílio Vaticano II, ao afirmar que a Igreja é sacramento universal de salvação, não a identifica com o Reino, mas a coloca a seu serviço. Essa distinção é fundamental para evitar que a instituição se substitua ao Evangelho.
Por fim, a perícope de Marcos 4,26-34 constitui o fundamento hermenêutico para a esperança cristã no tempo presente. Ela atesta que a fidelidade ordinária, ainda que oculta aos olhos do mundo, possui eficácia histórica e alcance escatológico. Nenhum gesto de amor é estéril. Como nos recorda a Carta aos Hebreus, a nossa garantia reside naquele que é Fiel (Hb 10,23). Assumir essa lógica é um ato de resistência contra a cultura do cinismo e a tirania do imediatismo, descansando na certeza de que o Reino germina — de forma silenciosa, discreta e soberanamente irreversível
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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