O cenário narrativo não é um detalhe secundário. Jesus ensina à beira do mar da Galileia, sentado numa barca, enquanto a multidão permanece em terra. O mar, na tradição bíblica, carrega uma ambiguidade simbólica profunda: lugar do caos primordial (Gn 1,2), espaço das forças que ameaçam a vida (Sl 107,23-30), mas também ambiente de trabalho, sustento e conflito social. A Galileia do século I vivia sob o peso do domínio romano, da tributação abusiva, da concentração de terras e do endividamento camponês. Muitos dos ouvintes de Jesus conheciam a instabilidade da vida agrícola, a dependência das chuvas, o risco constante de perder a colheita. Falar de sementes, solos e frutos não era recurso retórico abstrato, mas linguagem encarnada na experiência cotidiana de um povo vulnerável.
Essa dimensão histórica ilumina uma curiosidade agrícola decisiva para a compreensão da parábola. Na prática agrícola antiga, a semeadura precedia a aração completa do solo. O agricultor lançava a semente manualmente e, só depois, preparava a terra. Era, portanto, inevitável que parte da semente caísse à beira do caminho, entre pedras ou em meio a espinhos. Jesus não descreve um agricultor descuidado, mas uma prática comum e reconhecível. Essa observação exegética impede leituras moralistas e revela algo essencial: a Palavra de Deus é lançada no mundo real, marcado por imperfeições, desigualdades e resistências. O Reino não nasce de condições ideais, mas da fidelidade do Semeador.
O gesto do semeador é, antes de tudo, um gesto de gratuidade. Ele não seleciona o terreno, não calcula perdas, não restringe a oferta. Do ponto de vista teológico, isso revela a lógica da graça, que antecede qualquer mérito humano. A Palavra é dom antes de ser resposta. Isaías já havia anunciado essa dinâmica ao comparar a Palavra à chuva que fecunda a terra sem pedir permissão (Is 55,10-11). O mesmo horizonte aparece no Salmo 126, quando o semeador sai chorando, mas retorna com alegria, trazendo os feixes. A parábola, assim, desloca o foco da eficiência humana para a fidelidade divina.
Marcos, no entanto, insiste na dificuldade da escuta. Os discípulos precisam pedir explicação. Ouvir Jesus não garante automaticamente compreensão. Há uma distância entre escutar e acolher, entre ouvir e deixar-se transformar. A distinção entre os que estão “dentro” e “fora” (Mc 4,11) não institui uma elite espiritual, mas denuncia uma atitude existencial. O coração, na antropologia bíblica, é o lugar da decisão, da memória e da fidelidade. Por isso, o tipo de solo não descreve personalidades fixas, mas posturas diante da Palavra.
A semente que cai à beira do caminho simboliza o coração endurecido, pisoteado, incapaz de acolher. Biblicamente, trata-se do coração de pedra denunciado pelos profetas (Ez 36,26). No contexto contemporâneo, esse solo se manifesta na banalização do sagrado, na saturação de discursos religiosos e na transformação da fé em ruído. Psicologicamente, trata-se de um fechamento defensivo: para não ser confrontado, o sujeito se torna impermeável. A Palavra até chega aos ouvidos, mas não alcança a interioridade. O Maligno, simbolizado pelas aves, não precisa agir com violência; basta promover distração, superficialidade e indiferença.
O terreno pedregoso aprofunda ainda mais o drama da escuta. Aqui há entusiasmo inicial, emoção, adesão rápida, mas ausência de raízes. A fé se reduz à experiência afetiva, incapaz de sustentar-se diante do conflito. Marcos é incisivo ao afirmar que a queda acontece quando surge a tribulação “por causa da Palavra” (Mc 4,17). Essa observação é decisiva: não é qualquer sofrimento, mas aquele que nasce do compromisso com o Evangelho. O texto desmonta, assim, as teologias da prosperidade e do domínio, que prometem sucesso contínuo e imunidade ao sofrimento. O discipulado, segundo Marcos, passa necessariamente pela cruz (Mc 8,34-35). Uma fé sem profundidade se torna frágil diante da realidade.
O solo cheio de espinhos revela uma outra forma de esterilidade, talvez a mais sofisticada e socialmente aceita. Jesus nomeia claramente os espinhos: preocupações do mundo, sedução da riqueza e outros desejos. Aqui a crítica ultrapassa o plano individual e alcança as estruturas sociais. A sociologia contemporânea descreve um sistema que produz ansiedade permanente, competição incessante e mercantilização de todas as dimensões da vida. Quando a fé é capturada por essa lógica, ela se torna mercadoria, instrumento de ascensão pessoal, moeda de troca simbólica. A denúncia profética de Amós contra uma religião que convive com a injustiça (Am 5,21-24) ecoa com força nesse cenário.
A terra boa não é apresentada como solo perfeito, mas como espaço de perseverança. Lucas acrescenta que ela guarda a Palavra com coração bom e reto (Lc 8,15), indicando maturidade, integração interior e fidelidade ao processo. A agricultura antiga sabia que o fruto exige tempo, cuidado e paciência. Não há colheita imediata. Essa dimensão histórica da espera ilumina a espiritualidade cristã e confronta a lógica da instantaneidade contemporânea. O Reino cresce lentamente, muitas vezes de forma invisível, como o fermento na massa ou a semente que brota enquanto o agricultor dorme (cf. Mc 4,26-29).
O fruto: trinta, sessenta, cem por um — não deve ser lido como escala meritocrática, mas como expressão da fecundidade da graça. Paulo retoma essa intuição ao afirmar que um planta e outro rega, mas é Deus quem dá o crescimento (1Cor 3,6). A Palavra, quando acolhida, transborda em práticas concretas: justiça, misericórdia, fidelidade, cuidado com os pobres e com a criação. Aqui se rompe definitivamente com uma fé intimista
Orígenes insistia que o mesmo coração pode, em momentos distintos, assumir características de todos os terrenos, o que reforça a dimensão dinâmica da conversão. Agostinho via na terra boa o coração humilde, que reconhece sua dependência de Deus e se deixa trabalhar pela graça. Essa leitura impede qualquer julgamento moralista e reafirma que o discipulado é caminho, não estado adquirido.
Reconhecemos que a Igreja não é proprietária da semente nem controladora do crescimento. Ela é servidora da Palavra. Quando ministros se colocam como donos da graça, transformam o Evangelho em instrumento de poder e exclusão. O Concílio Vaticano II recorda que a revelação é dom oferecido a todo o Povo de Deus (Dei Verbum, 1), e o Papa Francisco denunciava o clericalismo como uma das mais graves deformações da vida eclesial (Evangelii Gaudium, 102). A atualidade da parábola se manifesta quando a colocamos em diálogo com as crises contemporâneas. A devastação ambiental, fruto de uma lógica predatória, torna-se imagem concreta do solo ferido que já não consegue gerar vida. A desigualdade social e a exclusão revelam espinhos estruturais que sufocam a Palavra antes mesmo que ela possa frutificar. Há, portanto, um chamado ético e profético: cuidar do solo do coração, do solo da sociedade e do solo da criação.
Em suma, a parábola do Semeador (Mc 4,1-20) atua em nossa caminhada como espelho, denúncia e promessa. Serve de espelho ao revelar nossas resistências em acolher a novidade do Reino; soa como denúncia contra as falsas espiritualidades que buscam consolo sem compromisso; e firma-se como promessa de que a Palavra é lançada com generosidade divina, superando qualquer fracasso aparente.
Vivendo a liturgia do Tempo Comum, somos convocados a entender que o 'bom terreno' se faz no dia a dia. A santidade floresce no labor paciente de transformar solos áridos em terra fértil, onde o Evangelho possa germinar. Não basta ouvir; é preciso perseverar. Que a Palavra crie em nós raízes tão profundas que sejamos capazes de resistir às intempéries da história e oferecer, como resposta, frutos concretos de justiça e caridade. Assim, nossa vida se tornará, de fato, uma colheita agradável que sustenta e transforma a vida do mundo (cf. Jo 15,16).
DNonato - Teólogo do Cotidiano

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