sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 3,13-19.

 

Na segunda sexta-feira do Tempo Comum, a liturgia nos convida a mergulhar na profundidade de Marcos 3,13-19, um texto que vai além do simples relato histórico e nos abre a contemplação do coração do projeto divino. Somos chamados a perceber como cada gesto de Jesus, cada escolha de pessoas e cada convocação revela a forma como Deus se aproxima da história humana, muitas vezes contrariando nossa lógica, nossos valores e nossas expectativas. Quando lemos que “Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis”, não se trata de um movimento físico isolado, mas de um ato carregado de simbolismo e de pedagogia divina. O monte, na tradição bíblica, é sempre lugar de encontro, revelação e formação: é no Sinai que Moisés recebe a Lei, no Horebe que Elias escuta a voz suave de Deus, no Carmelo que a fidelidade do Senhor se manifesta de maneira decisiva. Subir ao monte, portanto, é aprender que a intimidade com Deus precede qualquer ação: é na escuta, na contemplação e na transformação interior que se funda toda missão autêntica.

Além disso, o gesto de Jesus nos ensina algo essencial sobre a liberdade e a escolha: Ele chama aqueles que Ele quer, lembrando-nos que a iniciativa do amor de Deus precede e orienta nossa resposta. A convocação dos discípulos não é apenas funcional, mas existencial: implica entrega, confiança e abertura à renovação de toda lógica humana. Cada nome listado – Simão, Tiago, João, André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago de Alfeu, Tadeu, Simão, Judas Iscariotes. Todos carregam  histórias, sonhos e limitações; e, ainda assim, são convidados a participar da construção do Reino, lembrando-nos de que Deus age sempre em fidelidade à sua graça, e não às expectativas humanas.

Ao contemplarmos Marcos 3,13-19, somos assim convidados a subir nosso próprio “monte”, a aprender que missão verdadeira é fruto de intimidade com Deus, e que a obra do Reino só se realiza na conjugação da escolha divina e da disponibilidade humana. A contemplação desse texto nos desafia: como estamos deixando Deus nos escolher e nos formar, antes de nos lançar na missão que Ele nos confia?

A escolha dos discípulos revela a soberania divina, que olha para o coração e não para a aparência ou mérito humano. Ele chama pescadores, cobradores de impostos, homens comuns com limitações evidentes, mostrando que o poder do Reino se manifesta na fraqueza e na abertura à graça. Nos sinóticos, Mateus 10,1-4 e Lucas 6,12-16 reforçam que a autoridade para a missão não depende de habilidade, status social ou prestígio, mas da prontidão para servir e aprender. Este padrão ecoa em toda a tradição bíblica: Moisés, com sua fala limitada, Gideão, temeroso e frágil, Jeremias, chamado antes de nascer, e Samuel, ainda menino, são escolhidos apesar das fragilidades, lembrando-nos que no Reino a força não está no talento, mas na fidelidade.

O monte é também espaço de preparação e intimidade, onde o discipulado se constrói pelo convívio próximo e pela experiência concreta e essa proximidade permite amadurecimento, confiança e coesão, refletindo o que Aristóteles chamava de amizade virtuosa e aprendizagem prática. Vemos Jesus forma uma rede de relações que resiste ao individualismo e ao pragmatismo do mundo, criando vínculos capazes de sustentar a missão diante de pressões externas. Cada discípulo recebe identidade, responsabilidade e vocação, assim como na tradição do Antigo Testamento, onde dar nome confere pertencimento, missão e dignidade. Sabemos que o nome conecta o indivíduo à memória coletiva, à tradição e à continuidade do povo de Deus. O número doze simboliza totalidade, unidade e universalidade, refletindo a continuidade de Israel e a missão de fazer discípulos de todas as nações. Cada discípulo é parte de um projeto coletivo, chamado a semear e frutificar, resistindo às pressões do mundo, à fama e ao domínio pessoal, e o chamado individualizado mostra que a liberdade divina respeita a singularidade de cada ser humano, valorizando coração, disposição e fidelidade mais do que currículo ou habilidade técnica.

A Galileia do primeiro século era marcada por tensões políticas, sociais e religiosas: ocupação romana, cobrança de impostos, conflito entre seitas judaicas e marginalização de certas profissões. Ao escolher doze homens comuns, Jesus forma um grupo coeso, capaz de resistir a pressões externas e conflitos internos e o discipulado se torna modelo de comunidade ética: cada membro contribui para a missão coletiva, aprendendo a lidar com diferenças, defeitos e limitações e a proximidade fortalece resiliência, identidade e coesão, criando vínculos duradouros que sustentam a missão diante da oposição.

A pedagogia de Jesus é exemplar: 

  • Ele ensina pelo convívio, 
  • forma pelo exemplo, capacita pelo relacionamento 
  •  envia para a missão.

 Não há espetáculo, nem busca de prestígio ou aprovação humana. Isto contrasta radicalmente com linhas teológicas distorcidas, como a teologia da prosperidade, a fé mercadoria ou a religião do status, que reduzem a fé a resultados visíveis, lucro espiritual e prestígio pessoal. Marcos 3 nos ensina que a verdadeira autoridade se manifesta no serviço, no amor concreto e na fidelidade silenciosa. O clericalismo também é desafiado: liderança não é imposição, mas acompanhamento; não é prestígio, mas serviço; não é exibição, mas formação.

Santo Agostinho destaca que Deus escolhe não pela força, mas pela humildade e fé; João Crisóstomo enfatiza que estar perto de Cristo transforma integralmente o discípulo; Irineu de Lyon vê nos doze a expressão da unidade e diversidade da Igreja; Tomás de Aquino ensina que a graça divina completa as fragilidades humanas. A história da Igreja mostra que a formação de líderes e comunidades sempre seguiu este princípio, resistindo ao poder e à vaidade humana, valorizando a intimidade com Cristo e o compromisso com o próximo. Paralelos na Bíblia  evidenciam a consistência da pedagogia divina: Elias é capacitado para confrontar os profetas de Baal, os profetas menores são chamados apesar da rejeição, e Israel é instruído a permanecer fiel mesmo em meio à opressão. Todos esses episódios ecoam no discipulado dos doze, lembrando que Deus atua concretamente na história, escolhendo sujeitos concretos, muitas vezes em meio à hostilidade e à fragilidade humana.

Aqui vale a pena se perguntar:

  • O chamado dos doze é também convite à reflexão pessoal: como fazemos nossas escolhas?
  •  Nossos critérios são humanos, baseados em prestígio ou agradabilidade, ou nos deixamos guiar pelo discernimento espiritual e pela justiça? 
  • Acolhemos os que parecem incapazes, mas cujo coração está aberto ao Reino?
  •  Onde encontramos nossos amigos e colaboradores, e como discernimos a presença de Deus em cada encontro?

 A intimidade com Cristo, a oração e o estudo da Palavra nos ajudam a responder a essas perguntas, permitindo formar comunidades de fé autênticas e missionárias.

Ao olharmos discípulo por discípulo, percebemos nuances da vocação e da missão: 

  • Simão Pedro, chamado “rocha”, simboliza firmeza, mas também a fragilidade humana, e Deus o capacita apesar de seus impulsos, tornando-o fundamento da comunidade
  • . André, irmão de Pedro, representa humildade e mediação, conduzindo outros ao encontro de Jesus. 
  • Tiago e João, filhos de Zebedeu, expressam intensidade e zelo, cuja paixão é moldada pela proximidade com Cristo.
  •  Felipe e Bartolomeu (Natanael) representam discernimento e abertura ao novo, destacando a missão de conduzir outros ao Mestre. 
  • Mateus, o cobrador de impostos, simboliza inclusão: Deus transforma marginalizados em instrumentos de missão. 
  • Tomé representa o questionamento honesto; sua presença mostra que fé não exige ausência de dúvida, mas sinceridade. 
  • Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu (ou Judas, filho de Tiago) simbolizam os discretos, cuja fidelidade silenciosa é essencial à missão.
  •  Simão, o Zelote, demonstra que diversidade de origem pode ser integrada ao Reino quando a energia é redirecionada para o bem.
  •  Judas Iscariotes recorda a liberdade humana: Deus respeita escolhas, mesmo quando conduzem à traição, revelando que responsabilidade e graça coexistem.

Documentos do Magistério reforçam essa perspectiva: a CNBB destaca que “a missão da Igreja se realiza em comunidades vivas, comprometidas com fraternidade, justiça e partilha, e não pelo prestígio ou pelo sucesso individual”; o Documento de Aparecida (CELAM, 2007, n. 361-368) afirma que “a conversão pastoral exige reconhecer a ação de Deus na escolha de sujeitos concretos e valorizar a comunidade, resistindo ao clericalismo e à religiosidade individualista que transforma a fé em mercadoria”.

A subida ao monte, o chamado dos doze e a proximidade com Cristo nos convidam a uma fé madura, enraizada na intimidade com Deus e capaz de resistir às seduções do individualismo e às armadilhas de uma fé transformada em mercadoria. O discípulo não é chamado a buscar prestígio, poder ou reconhecimento humano, mas a deixar-se moldar pela graça, permitindo que o amor de Deus transforme suas escolhas, suas atitudes e sua forma de se relacionar com o mundo.

Marcos 3,13-19 revela que o essencial não é ocupar posição, impressionar ou agradar aos outros, mas acolher a vocação divina, aceitar a fragilidade humana e caminhar com coragem na missão de semear o Reino. Cada discípulo é chamado a lançar sementes de vida, justiça e compaixão em corações e comunidades, mesmo diante das dificuldades, das incompreensões e das pressões de um mundo que muitas vezes valoriza o espetáculo, o lucro ou a aparência sobre a verdade e o amor.

Ser discípulo implica caminhar até o fim, perseverar na fidelidade, abraçar os pequenos e os marginalizados, e formar comunidades que reflitam a sabedoria, a misericórdia e a justiça de Deus. A escolha de Jesus pelos doze, homens comuns, revela que a força do Reino não reside na posição, no talento ou na influência, mas na obediência humilde à vontade divina e na disposição de frutificar segundo os desígnios de Deus.

Portanto,  Marcos 3,13-19 proclamado na sexta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum nos desafia a vivermos  uma fé que não se curva às distorções do poder eclesial, à tentação do sucesso fácil ou à superficialidade das relações humanas. Somos chamados a ser discípulos que constroem pontes, cultivam fidelidade, perseveram no amor e tornam visível, no cotidiano, a presença de Deus que transforma, cura e renova. É esta fidelidade silenciosa e comprometida que, ao final, produzirá frutos duradouros para o Reino, resistindo às pressões do mundo e permanecendo firmes na missão que Cristo nos confiou.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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