A reflexão que se segue não nasce de boatos, manipulações ou teorias conspiratórias, mas da realidade concreta, amplamente registrada. O episódio não é inventado; o que se propõe aqui é uma leitura teológica, bíblica e profética de um acontecimento real, situado historicamente, que ocorreu no interior de um ato político travestido de celebração religiosa.
Ignorar os fatos ou reduzi-los a mera coincidência natural seria tão irresponsável quanto transformá-los em espetáculo sensacionalista. A Escritura, porém, nos ensina outro caminho: ler os sinais com discernimento, à luz da fé e da ética, sem medo da verdade e sem submissão a slogans. É desse lugar — crítico, bíblico e comprometido com a realidade que esta reflexão emerge.
“Deus, Pátria e Família” só fazem sentido quando Deus não é capturado, quando a pátria não é absolutizada e quando a família não é reduzida a retórica moral. Fora disso, o lema deixa de ser horizonte ético e se converte em ídolo bem articulado: um bezerro de ouro com linguagem religiosa, diante do qual se exige adesão e silêncio. A história bíblica é clara e reiterada: Deus não marcha em cortejos ideológicos, não assina manifestos de dominação e não divide Sua glória com projetos autoritários.
Por isso, quando o céu responde com um estrondo — uma ruptura que rasga o cotidiano de uma caminhada — não se trata de espetáculo nem de acaso a ser romantizado. Trata-se de advertência. Deus se cansa quando Seu Nome é usado para ferir, quando a fé vira palanque e o púlpito se confunde com o poder. Ainda há tempo para rasgar o coração, desmontar os slogans e devolver a Deus o que é de Deus. Porque, quando até Deus se cansa, não é Ele quem se afasta da humanidade; é a humanidade que insiste em usá-Lo como ferramenta. E disso, a Escritura nunca fez elogio sempre fez denúncia.
O Decálogo é direto e radical ao afirmar que o Nome de Deus não é ornamento retórico nem selo ideológico. “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (Ex 20,7) ultrapassa em muito a blasfêmia verbal: alcança toda tentativa de anexar Deus a interesses humanos, como se o Altíssimo fosse avalista de vaidades eleitorais ou projetos de dominação. Jeremias já havia desnudado essa lógica quando denunciou o povo que repetia mecanicamente “Templo do Senhor, Templo do Senhor” (Jr 7,4), acreditando que a invocação do sagrado os blindava contra o juízo, enquanto praticavam injustiça, opressão e mentira. A resposta divina é severa e pedagógica: o Templo não é amuleto, e o culto não substitui a conversão. O eco dessa denúncia ressoa hoje, quando a Cruz é reduzida a degrau e o Evangelho a slogan mobilizador.
A teologia da história, tão central na tradição bíblica, insiste em um princípio inegociável: Deus não divide Sua glória nem negocia Sua santidade. O episódio do bezerro de ouro (Ex 32) não se limita a uma idolatria grosseira, mas revela uma perversão ainda mais sutil: chamar de “Senhor” aquilo que o próprio povo fabricou com as mãos. Trata-se do deus sob medida, moldado à imagem dos desejos humanos. Em nossos dias, erguem-se bezerros políticos dourados com verniz religioso, diante dos quais se exige adesão cega, confundindo fidelidade a Deus com fidelidade a líderes. O salmista já advertia, com lucidez desconcertante: “Não confieis em príncipes, em filhos de homens, em quem não há salvação” (Sl 146,3).
O fogo que desce na narrativa de Nadabe e Abiú (Lv 10,1-2) não é capricho divino, mas pedagogia do sagrado. Eles oferecem “fogo estranho”, isto é, um culto nascido da presunção e não da obediência, da iniciativa humana e não da escuta reverente. Morrem no espaço do altar para que Israel compreenda que Deus não aceita liturgias contaminadas pelo ego e pela instrumentalização do sagrado. Nesse sentido, a eletricidade que rasgou o céu e feriu pessoas em meio a uma celebração político-religiosa funciona como uma parábola contemporânea desse mesmo “fogo estranho”: quando fé e partidarismo se misturam, quando o zelo pelo Reino é substituído pela fome de poder, o que se atrai não é bênção, mas advertência. “Quem subirá ao monte do Senhor?”, pergunta o salmista, “o de mãos limpas e coração puro, que não entrega sua alma à falsidade” (Sl 24,3-4).
A Escritura também é implacável com líderes que se deixam endeusar. Herodes Agripa, em Atos 12, aceita a aclamação divina e morre corroído por dentro, porque não devolveu a glória a Deus. O texto é brutal em sua clareza: o juízo não vem de fora, mas brota da idolatria interior. O mesmo princípio aparece em Ezequiel, quando Deus acusa os pastores que se apascentam a si mesmos e não ao rebanho (Ez 34). Líderes que usam o povo como massa de manobra espiritual atraem sobre si a espada do juízo. Jesus retoma essa denúncia ao chamar de “cegos guiando cegos” aqueles que transformam a religião em sistema de dominação (Mt 23,16-28).
Do ponto de vista teológico, a tentativa de fundir Reino de Deus e poder temporal constitui uma forma de messianismo político explicitamente recusada por Cristo. “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36) não significa fuga da história, mas rejeição radical da lógica da dominação como critério do agir religioso. Sempre que a Igreja — ou setores que falam em seu nome — se esquecem disso, repetem a terceira tentação do deserto, quando o diabo oferece a Jesus todos os reinos do mundo em troca de adoração (Mt 4,8-10). A resposta de Cristo permanece como critério permanente de discernimento: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás”. Onde essa linha é cruzada, o culto deixa de ser culto e se converte em idolatria política.
Os profetas jamais trataram tais desvios com neutralidade. Isaías grita contra os que “chamam o mal de bem e o bem de mal” (Is 5,20). Miquéias denuncia líderes que “julgam por suborno e profetizam por dinheiro, enquanto se apoiam no Senhor dizendo: ‘Não está o Senhor no meio de nós?’” (Mq 3,11). Jesus, herdeiro direto dessa tradição profética, não hesita em expulsar os vendedores do Templo, acusando-os de transformar a casa de oração em covil de ladrões (Mc 11,15-17). Sempre que o sagrado vira ferramenta de poder, o chicote simbólico do juízo já está em movimento.
Por isso, o sofrimento dos feridos não pode ser banalizado nem espiritualizado de forma cínica. Ele pesa como acusação moral sobre aqueles que, por ambição e irresponsabilidade, expõem o rebanho ao risco, brincando com símbolos, emoções e forças espirituais que não dominam. O Novo Testamento é severo: “Ai daquele que escandalizar um destes pequeninos” (Mt 18,6). E a advertência de Hebreus permanece aterradora em sua atualidade: “É terrível coisa cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10,31), sobretudo quando se cai após profanar Seu Nome em nome de causas humanas.
Que o estrondo que veio do alto seja lido como trombeta de misericórdia antes que se torne sentença. Ainda há tempo para o arrependimento, para o retorno ao pó, para a separação clara entre fé e idolatria. O Deus que é fogo consumidor (Dt 4,24) é o mesmo que não deseja a morte do pecador, mas sua conversão (Ez 18,23). Contudo, Ele jamais será cúmplice da arrogância religiosa, nem figurante em palanques travestidos de púlpitos. Quando “Deus, Pátria e Família” deixa de ser horizonte ético e se transforma em slogan de poder, a fé já foi sequestrada e o Nome, profanado. Deus vira instrumento retórico, a pátria, escudo ideológico, e a família, pretexto moral para excluir, silenciar e dominar.
Há um limite. E quando a fé insiste em servir ao poder, chega o momento em que até o céu se cansa. O Deus bíblico não marcha com projetos autoritários, não legitima a extrema direita travestida de piedade e não divide Sua glória com ídolos bem vestidos. Quando Deus fala assim, o gesto mais sábio não é a defesa nem o discurso, mas o silêncio reverente, o rasgar do coração e o retorno humilde Àquele que não se deixa capturar por lemas, bandeiras ou projetos de dominação.
Prof DNonato


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