O Advento sempre nos coloca numa travessia entre promessa e cumprimento, entre fome e saciedade, entre feridas e cura. O Evangelho de Mateus 15,29-37, proclamado na 4ª feira da 1ª semana do Tempo do advento sublinham o rosto compassivo do Messias, nos conduz ao monte onde Jesus se senta — gesto de mestre, gesto de profeta, gesto de quem convoca e acolhe. A montanha na Bíblia nunca é mero cenário; é lugar teológico. Ali Deus se revela, não como o Deus do trovão e da distância do Sinai, mas como o Deus que desce, toca os feridos, cura os deslocados e alimenta os famintos. É o Advento sendo vivido de forma antecipada antes mesmo do nascimento em Belém: Deus já está se aproximando, já está restaurando, já está invertendo as lógicas de exclusão.
Mateus ressalta que a multidão que chega até Jesus é composta de coxos, cegos, aleijados, mudos e tantos outros carregados por familiares e amigos. Pessoas descartadas pela religião da época, excluídas por um sistema que acreditava que doença era castigo, deficiência era maldição e sofrimento era sinal de desagrado divino. Isaías 35 ecoa neste cenário: “Então se abrirão os olhos dos cegos, se desatarão os ouvidos dos surdos, o coxo saltará como cervo.” O Evangelho é o anúncio: aquilo que Isaías profetizou está acontecendo agora, diante dos olhos do povo. No Advento, a Igreja lê esse texto para lembrar que aquele Menino que virá em Belém é o mesmo que, já adulto, sacia fomes e cura feridas.
E é justamente enquanto o Evangelho nos conduz a essa montanha onde Jesus acolhe, cura e alimenta os esquecidos que a nossa própria realidade começa a se revelar. O Advento nos obriga a reconhecer que as mesmas angústias, exclusões e buscas daquela multidão anônima continuam vivas em nós e ao nosso redor. É nesse espelho que a nossa experiência cotidiana ressoa e que seu texto se insere com força profética e honesta, iluminando o Evangelho a partir da vida concreta: “Deus sabe das nossas necessidades e crises sofremos nesse tempo que antecede o Natal a ansiedade se teremos uma roupa nova e se poderemos presentear aqueles que amamos e pedimos ao Senhor que nos ajude. No contexto bíblico o povo que ia até Jesus sofria todo tipo de exclusão pois se lia que se pessoa tem uma deficiência física certamente é Deus o castigando por causa de um pecado e falha, coisa que muitos ainda pregam em nossas Igrejas e diante da realidade Jesus não só os cura como também lhe oferece o alimento e isso nos trouxe a memória de uma missa de um certo domingo pela TV quando o animador da liturgia anunciou que só poderia comungar aqueles que estivessem preparados. Isso nos acendeu uma crise moral pois diante da sociedade de disputa de poder, de uma religião que se torna fuga da realidade, diante das nossas covardia e omissão, diante tantos outros males que não vamos enumerar. Quem estaria preparado?”
Essa pergunta — quem estaria preparado? — é a pergunta que atravessa séculos. Ela ecoa a provocação dos profetas: “Quem poderá permanecer quando Ele aparecer?” (Ml 3,2). O Evangelho responde não com doutrina abstrata, mas com gesto: Jesus acolhe os que não se consideravam dignos. A crítica ao clericalismo aparece inevitável: transformar a Comunhão em prêmio para poucos é o oposto da lógica de Jesus. A mesa não é troféu espiritual. A Eucaristia não é controle moral. Como dizia Santo Agostinho, “a Eucaristia é remédio para os fracos, não recompensa dos perfeitos”.
Quando na missa se diz: “só pode comungar quem estiver preparado”, vemos a sombra dos fariseus do capítulo 23 de Mateus, que transformavam a fé em vigilância, a religião em barreira, a lei em instrumento de poder. Jesus denuncia isso com severidade: “Atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros.” O Advento nos faz lembrar que o Deus que vem não é o Deus dos fardos, mas o Deus da libertação.
Ao aproximar-nos da cena da multiplicação, compreendemos que o gesto de Jesus é também uma ruptura simbólica com a teologia da prosperidade, que ainda hoje prega que Deus ama quem “vence”, quem prospera, quem exibe conquistas materiais. Mas Jesus não multiplica pães para premiar os fortes; ele multiplica para alimentar os famintos. A teologia do domínio, que vê fé como arma para conquistar poder, também é desmascarada. Jesus não mobiliza a multidão para um golpe político; ele simplesmente os faz sentar no chão, como iguais, como irmãos, como quem vai participar de um banquete que não depende de posses nem de méritos.
“Por isso a hoje lendo o milagre da partilha, multiplicação dos pães a comunidade apostólica não falou que só podiam participar da mesa quem estivesse cumprindo os ritos religiosos dos judeus, simplesmente se aproximou aqueles que estavam com fome do Pão que é Jesus e por isso partiram o pão material que o alimento para o corpo. O grande desafio de se ter uma fé encarnada é levar a cura aos outros sem julgamento ou barreiras, deixe que própria pessoa reconheça onde pode somar conosco, a nossa preparação para o Natal deve nos ajudar a refletir sobre as nossas atividades e atitudes frente a realidade e a necessidade do próximo. O evangelho de hoje falar de pão físico, fala de uma multidão sem nome e excluídos do sistema e ainda hoje em nossas Igrejas temos milhares de excluídos da mesa e isolados por causa de nossas posições e opiniões.”
A multidão sem nome é um dos grandes símbolos deste Evangelho. Na sociologia do Mediterrâneo antigo, quem não tem nome não tem lugar. Mas no Reino de Deus, quem não tem nome ganha rosto; quem não tem lugar recebe assento; quem não tem voz é ouvido. A antropologia bíblica recorda que todo humano é imagem e semelhança de Deus, e Cristo, ao acolher os excluídos, devolve-lhes não somente a saúde, mas a dignidade.
Infelizmente algumas comunidades ainda hoje criam barreiras: medo, insegurança, projeções, a necessidade de manter controle para parecer “puro” ou “superior”. Mas a lógica do Evangelho é oposta: pureza não é separação; pureza é compaixão. É a pureza do Bom Samaritano, não a pureza do sacerdote que passa ao largo (Lc 10:25-37) . A filosofia moral, especialmente em Lévinas, é contundente: o rosto do outro me obriga. E negar pão ao outro — seja material, seja sacramental — é negar sua humanidade.
São João Crisóstomo dizia: “Queres honrar o Corpo de Cristo? Não o desprezes quando o vês nu na pessoa pobre.” E Santo Ireneu insistia: “A glória de Deus é o ser humano vivo.” Vida plena não é só respiração; é dignidade, mesa, pão, comunhão.
A crítica profética à fé como mercadoria torna-se inevitável. Hoje, muitos transformam a fé em show, a liturgia em palco, a pregação em entretenimento, a caridade em marketing. Mas a multiplicação dos pães não tem triunfalismo. Jesus realiza o milagre em silêncio, sem plateia, sem holofotes, sem fórmulas mágicas. Ele apenas sente compaixão. E compaixão, no grego splágchnizomai, significa estremecer nas entranhas. É sentir dor no fundo do corpo. A compaixão de Jesus é tão forte que se torna pão.
É por isso que a cena é também convite e denúncia. A encíclica Fratelli Tutti (n. 215) lembra que estamos perdendo a capacidade de compartilhar a mesa, de nos encontrarmos, de reconhecermos a humanidade do outro. Evangelii Gaudium denuncia a “globalização da indiferença” que faz com que tragédias humanas se tornem dados estatísticos. Gaudium et Spes 63–66 afirma que o escândalo da fome contradiz o Evangelho. E Mateus 15,29-37 anuncia: Deus não aceita esse escândalo. Deus oferece pão.
"Que Deus nos ajude a superar tais situações e que possamos começar a comer juntos como verdadeiros irmãos que ousam chamar em todas as celebrações o Deus de Pai nosso e pedir o Pão nosso.”
A mesa é o lugar mais revolucionário do Evangelho. É à mesa que Jesus reconstrói o mundo. É à mesa que Ele nos reconhece como irmãos e irmãs. É à mesa que Ele derruba muros, desfaz exclusões e cura feridas. É à mesa que Ele faz da multidão sem nome uma família.
O Advento nos chama a isso: preparar o coração para um Deus que não nos pede exames, mas nos oferece pão; que não nos pergunta sobre méritos, mas pergunta sobre fome; que não exige pureza ritual, mas nos convida à pureza da misericórdia. Se Belém significa “Casa do Pão”, então aproximar-se do Natal é aproximar-se da mesa onde todos têm lugar.
Que possamos, então, viver este Advento com olhos iluminados pela esperança e mãos prontas para partir o pão, reconhecendo que ninguém está totalmente preparado, mas todos são totalmente amados. E que possamos, por fim, comer juntos, como irmãos, como quem ousa chamar Deus de Pai nosso e pedir o pão nosso.

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