quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Entre o socialismo e o capitalismo segundo Miquéias.

 
Miquéias: críticas ao capitalismo hoje e aponta o socialismo?
O profeta Miquéias, ativo no século VIII a.C., denunciou com coragem e precisão a exploração econômica, a concentração de terras e o uso da religião para legitimar privilégios das elites em Judá e Israel. Embora os sistemas de capitalismo, socialismo e comunismo surgissem apenas muitos séculos depois, suas palavras atravessam o tempo ao confrontar estruturas de poder que destroem vidas humanas. Miquéias não propõe modelos políticos ou econômicos modernos, mas apresenta um critério ético absoluto: a justiça de Deus, que exige cuidado com os pobres, limites à acumulação de riqueza e integridade no uso do poder.

Ao analisar práticas como expropriação de terras, enriquecimento ilícito e opressão legalizada, percebe-se que sua crítica ressoa com denúncias contemporâneas ao capitalismo selvagem, que transforma pessoas em mercadoria e legitima desigualdade extrema. Ao mesmo tempo, sua visão de um mundo seguro e digno para todos — simbolizado em imagens como cada um assentado sob sua videira e figueira (Mq 4,4) — apresenta afinidades éticas com valores redistributivos presentes em correntes socialistas e comunistas, sem, contudo, se enquadrar como ideologia política.

Quando se fala de justiça social em ambientes religiosos hoje, especialmente no Brasil marcado pela influência da extrema-direita e pelo fundamentalismo neopentecostal, qualquer menção à dignidade do pobre, à redistribuição de renda, ao combate à desigualdade ou ao clamor profético contra os ricos opressores é imediatamente rotulada como socialismo ou comunismo. Criou-se um espantalho conveniente: tudo o que toca na ferida do capitalismo predatório é automaticamente tachado de “ideologia marxista”, como se a própria Bíblia não estivesse repleta de denúncias contra a concentração de terras, exploração dos trabalhadores, enriquecimento ilícito e sistemas econômicos que esmagam o pobre. Nesse cenário, reler o profeta Miquéias se torna um exercício de resistência: ele desmonta os discursos simplistas que transformam justiça em ameaça, solidariedade em subversão e partilha em doutrina estrangeira.

Miquéias surge no mesmo ambiente histórico de Isaías e Amós, denunciando a exploração institucionalizada, os latifúndios que cresciam às custas do despojamento dos pequenos agricultores, o colapso moral das elites e o uso da religião para legitimar injustiças econômicas. Quando alguém hoje afirma que “a Bíblia não fala de estrutura social” ou que “profeta não critica sistema econômico”, basta abrir Miquéias 2,1–2, onde a denúncia é direta: “Ai dos que cobiçam campos e os roubam, das casas que tomam; oprimem o homem e sua casa, o dono e sua herança.” Essa estrutura de pilhagem — tomada de terras, concentração patrimonial e abuso de poder — é precisamente a engrenagem fundamental do capitalismo em sua forma mais violenta: o lucro construído sobre o sofrimento alheio, a apropriação dos meios de vida de quem só tem a terra e o trabalho para sobreviver.

Quando grupos religiosos de hoje chamam isso de “comunismo”, o que realmente estão fazendo é confessando que a justiça bíblica ameaça seus privilégios. Não é Miquéias que se aproxima do socialismo ou do comunismo; é o capitalismo contemporâneo que está tão distante da ética do Reino que qualquer aceno à compaixão já parece subversivo. Se a Bíblia fala contra a acumulação injusta, contra a exploração dos pobres, contra o uso do poder econômico para subjugar comunidades inteiras, então o Evangelho e os profetas passam a ser considerados “de esquerda”. É sintomático que, para certos setores religiosos, a palavra justiça tenha se tornado insulto político.

Miquéias não propõe um sistema econômico formal, mas sua visão de mundo é radicalmente incompatível com o capitalismo neoliberal, que transforma tudo em mercadoria — inclusive pessoas, tempo, terra, trabalho e fé. Em Miquéias 3,1–3, o profeta acusa as elites de “esquartejar” o povo, como se fosse carne no açougue. A imagem é brutal, mas revela a lógica do sistema: gente reduzida a insumo, àquilo que pode ser extraído, espremido e descartado. Não é difícil ouvir esse eco nas filas de desempregados, nas metas impossíveis dos entregadores por aplicativo, nos trabalhadores informais que sustentam uma economia que lucra sem vínculo e sem responsabilidade. A exploração continua com nova maquiagem, mas o mecanismo é o mesmo: poucos enriquecem enquanto muitos sangram.

Em Miquéias 6,8, encontramos uma espécie de síntese ética que atravessa toda a tradição bíblica: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus.” Se pensar em justiça estrutural é “coisa de comunista”, então a Palavra de Deus é revolucionária demais para nossos templos domesticados. Aqui, justiça não é caridade assistencialista, mas justiça redistributiva, histórica, concreta. Não se trata de doar restos, mas de reorganizar relações sociais. Esse ponto incomoda profundamente o capitalismo, que tolera esmolas, mas não admite revisões na maneira como produz riqueza. Por isso a reação: toda crítica ao lucro absoluto é imediatamente transformada em ameaça à “liberdade”. Mas qual liberdade? A liberdade do capital de explorar sem limites? Porque certamente não é a liberdade do pobre de viver sem fome.

Ao reler Miquéias, percebemos que muitos elementos identificados hoje como socialistas — defesa da dignidade do pobre, proteção da pequena propriedade familiar contra latifúndios predatórios, condenação da acumulação ilícita, limitação do poder dos ricos sobre a vida das pessoas, crítica à instrumentalização da religião — estão presentes no próprio tecido profético da Bíblia. O profeta não pertence ao marxismo, mas quando o marxismo denuncia os mesmos mecanismos que a profecia bíblica denuncia, a convergência é inevitável. E o motivo é simples: tanto a tradição profética quanto algumas correntes do socialismo e do comunismo se levantam contra sistemas que matam, que reduzem seres humanos a números, que naturalizam pobreza e desigualdade.

Em Miquéias 7,1–4, o profeta lamenta viver em um tempo em que “não há homem reto”, onde “os poderosos tramam juntos para exigir propina” e onde “o melhor deles é como espinheiro”. Ele descreve uma sociedade capturada por interesses privados, onde os vínculos sociais se deterioram e a corrupção se torna norma. A leitura contemporânea é quase automática: quando o capital compra a política, as instituições se dobram, e o povo paga a conta. Chamariam Miquéias de comunista se ele estivesse vivo? Sem dúvida. Porque sua denúncia toca no ponto nevrálgico: a injustiça não é acidente, é sistema. É estrutura. É escolha econômica. Ao mesmo tempo, o socialismo e o comunismo, enquanto teorias políticas que tratam seriamente de desigualdade estrutural, não podem ser simplesmente colados ao profetismo bíblico, mas é possível identificar afinidades éticas e antropológicas. Quando Miquéias anuncia em 4,3–4 um tempo em que cada pessoa se sentará “sob sua videira e sua figueira”, sem opressor, vemos uma visão de paz que só é possível com equidade: cada um com sua terra, com dignidade, com segurança, com acesso aos meios de vida. Não é comunismo no sentido moderno, mas certamente é contrário à lógica capitalista onde poucos possuem tudo e muitos não possuem nada. A justiça de Deus precisa de uma economia que não destrua pessoas.

O problema contemporâneo é que a palavra “comunismo” virou um espantalho tão grande que qualquer tentativa de tocar no nervo moral da desigualdade é rechaçada. Miquéias desmonta esse espantalho ao mostrar que o critério bíblico de justiça social é milenar e que os profetas não pediam apenas mudança individual de comportamento, mas transformação das relações econômicas, políticas e religiosas. Quando chamam um cristão comprometido com os pobres de comunista, revelam ignorância bíblica e cumplicidade com a lógica do lucro acima da vida.

Assim, reler Miquéias no Brasil atual — onde a extrema-direita grita “comunismo!” diante de qualquer política pública mínima — é permitir que o profetismo recupere sua voz. É lembrar que o capitalismo não é neutro, não é natural, não é inevitável, e muito menos é bíblico. É reconhecer que, embora não possamos simplesmente dizer que Miquéias era comunista ou socialista, também não podemos negar que suas palavras ecoam profundamente críticas que hoje são atribuídas a esses sistemas. Se a defesa dos pobres, a denúncia dos ricos opressores, a crítica às estruturas econômicas injustas e o sonho de um mundo redistributivo são marcas do comunismo e do socialismo, então a profecia bíblica certamente aponta nessa direção, mesmo sem compartilhar suas formulações históricas.

No fim, o incômodo é pedagógico: se as palavras de um profeta de quase três mil anos parecem socialistas aos ouvidos de hoje, talvez o problema não esteja no profeta — está em nós, que aceitamos como normal um sistema que produz miséria, violência e exclusão. Miquéias não é porta-voz de ideologias modernas, mas sua crítica atravessa séculos e ainda expõe nossa ferida aberta. E, se para alguns isso parece comunismo, é porque a justiça divina sempre parecerá escândalo para quem construiu sua segurança sobre o sofrimento dos outros. Miquéias, portanto, situa-se em uma posição singular: não é comunista nem socialista, mas transcende sistemas humanos ao denunciar qualquer estrutura que priorize lucro e poder sobre a vida. Entre o capitalismo e o socialismo, ele se coloca do lado da justiça, da misericórdia e da humildade perante Deus, lembrando que toda política ou economia deve ser medida pelo cuidado com os vulneráveis. Sua profecia continua relevante, desafiando sociedades modernas a repensarem desigualdades, corrigirem injustiças e enxergarem que a verdadeira prosperidade só é legítima quando todos têm acesso à dignidade e à vida plena.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

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