quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 1,26-38, Memória da Bem-aventurada Virgem Maria Rainha


O evangelho da Anunciação (Lc 1,26-38) é um dos mais solenes e reiterados de toda a liturgia da Igreja. Ele atravessa o ano litúrgico em momentos decisivos: na solenidade da Anunciação do Senhor, em 25 de março; no IV Domingo do Advento do Ano B, no dia
 20 de dezembro que faz parte dos  dias maiores do Advento; na Imaculada Conceição; nas memórias e solenidades marianas que pontuam o calendário eclesial. Essa recorrência não é redundância nem repetição vazia. Trata-se de pedagogia espiritual e histórica. Estamos diante de um texto fundacional, onde o tempo humano se deixa atravessar pela eternidade, onde o Infinito se faz finito, onde Deus escolhe o corpo, a história e a liberdade de uma jovem da periferia como lugar de encarnação. É um texto que nunca se esgota, porque a cada geração revela novas camadas de sentido, novas interpelações, novos espelhos nos quais a humanidade se reconhece.

Lucas situa cuidadosamente a cena no “sexto mês” da gravidez de Isabel, sinalizando que a salvação não acontece em histórias isoladas, mas em tramas entrelaçadas. Deus não age por atos individuais desconectados, mas por encontros, relações e vínculos solidários. Ele costura destinos, conecta fragilidades, cria sinfonias humanas onde ninguém se salva sozinho. O anjo não é enviado ao Templo de Jerusalém nem ao palácio imperial, mas a Nazaré, uma aldeia desprezada da Galileia, da qual se dirá com ironia: “Pode vir algo bom de Nazaré?” (Jo 1,46). Aqui há uma denúncia sociológica e teológica incontornável: Deus não legitima os centros de poder religioso, político ou econômico, mas inaugura a história nova a partir das margens. Como dirá Paulo, Deus escolhe o que é fraco para confundir os fortes (1Cor 1,27). Nazaré torna-se símbolo da periferia onde a esperança germina contra toda lógica dominante.

A saudação do anjo — “Alegra-te, cheia de graça” — ecoa diretamente as promessas proféticas dirigidas à Filha de Sião (Sf 3,14-17): “O Senhor está no meio de ti”. Maria é apresentada como a nova Sião, não mais um templo de pedras, mas um templo vivo, habitado pela presença divina. O termo grego kecharitomene, único em todo o Novo Testamento, não descreve apenas um favor pontual, mas um estado permanente: Maria é aquela que vive mergulhada na graça. Isso não a torna passiva nem submissa, mas profundamente livre. Aqui se revela uma chave psicológica e antropológica decisiva: liberdade não é isolamento nem autonomia absoluta, como propõe o imaginário moderno, mas relação, confiança e abertura ao outro. Maria não cria um projeto autorreferente; ela acolhe um chamado. E é exatamente nesse acolhimento que sua liberdade floresce plenamente.

Esse chamado se insere na longa tradição bíblica das vocações marcadas pelo temor inicial e pela missão assumida. Moisés diante da sarça ardente (Ex 3,11), Isaías no Templo (Is 6,5), Jeremias consciente de sua juventude (Jr 1,6), Gideão escondido no lagar (Jz 6,12). No mesmo capítulo de Lucas, Zacarias reage com desconfiança e fica mudo (Lc 1,20). Maria, ao contrário, pergunta não para rejeitar, mas para compreender. Sua pergunta lembra a de Abraão diante da promessa impossível (Gn 15,8). Sua resposta — “Eis-me aqui” — ecoa os grandes sim da história bíblica: Abraão (Gn 22,1), Samuel (1Sm 3,10), Isaías (Is 6,8). Trata-se de um sim que sintetiza a resposta da humanidade inteira ao chamado de Deus. Mas não é um sim ingênuo ou romântico. Historicamente, uma jovem prometida em casamento, grávida sem coabitação, estava exposta à exclusão social e até à morte por apedrejamento (Dt 22,23-24). O sim de Maria é um ato radical de coragem e vulnerabilidade. Fé não é anestesia nem blindagem contra a dor; é ousadia que assume riscos. Não há promessa de prosperidade, mas o anúncio de que uma espada atravessaria sua alma (Lc 2,35). Aqui se desmonta frontalmente a lógica da teologia da prosperidade e do domínio: a fé bíblica não promete imunidade ao sofrimento, mas dignidade para atravessá-lo sem perder a humanidade.

O anúncio possui ainda uma dimensão política explícita. O anjo proclama que o filho de Maria herdará o trono de Davi e que seu reino não terá fim. O Império Romano também possuía o seu “evangelho”: o nascimento de César era celebrado como boa notícia, e ele era chamado “filho de deus” e “senhor”. Lucas escreve conscientemente contra essa propaganda imperial. O verdadeiro Filho de Deus não nasce em palácios, mas no ventre de uma jovem anônima da periferia. Isso é denúncia contra toda idolatria política, ontem e hoje. Sempre que projetos autoritários, nacionalismos religiosos ou fundamentalismos tentam sequestrar a fé para legitimar violência, exclusão e desigualdade, a Anunciação se levanta como antídoto. O Reino anunciado não se confunde com nenhum império, partido ou ideologia. Ele se manifesta como serviço, justiça, misericórdia e proximidade. O Magnificat confirmará essa lógica subversiva: Deus derruba os poderosos, exalta os humildes, despede os ricos de mãos vazias e sacia os famintos (Lc 1,46-55). Celebrar Maria Rainha não é coroá-la com ouro, mas reconhecer que sua realeza desestabiliza os tronos da opressão.

Do ponto de vista antropológico, a Anunciação é uma ruptura profunda. Em uma sociedade patriarcal, Deus confia o futuro da história a uma mulher jovem, pobre e periférica. Não pede autorização a um homem, não consulta o Templo, não negocia com o poder. Trata-se de uma pedagogia divina que subverte hierarquias e desmonta o clericalismo. Deus não escolhe o sacerdote do turno, mas uma leiga invisível aos olhos do sistema. Aqui se antecipa a eclesiologia do Concílio Vaticano II: Igreja como povo de Deus em escuta, não como elite sacralizada. O Espírito sopra onde quer, inclusive fora dos esquemas religiosos estabelecidos.

A tradição patrística reconheceu com clareza essa densidade. Santo Irineu viu em Maria a nova Eva que desata o nó da desobediência com o fio da fé. Santo Agostinho afirmou que ela concebeu primeiro no coração antes de conceber no ventre. Santo Atanásio proclamou que o Filho de Deus se fez homem para que nós participássemos da vida divina. Santo Efrém cantou que o ventre de Maria se tornou mais vasto que os céus. São Bernardo imaginou o universo inteiro suspenso à espera de seu sim. Orígenes viu no diálogo com o anjo a imagem da alma que se abre à Palavra. Para os Padres, Maria nunca foi figura decorativa, mas síntese do humano reconciliado com Deus.

O Magistério da Igreja aprofunda essa leitura. A Lumen Gentium (n. 63) apresenta Maria como tipo e modelo da Igreja. A Gaudium et Spes recorda que a dignidade humana se realiza na corresponsabilidade histórica. A Evangelii Gaudium convida a aprender com Maria a deixar-se conduzir pelo Espírito, especialmente nas periferias. A Fratelli Tutti a contempla como mãe que gera fraternidade em um mundo ferido. A Redemptoris Mater insiste que Maria percorreu um itinerário de fé que passa pela cruz, longe de qualquer triunfalismo espiritual. A Marialis Cultus lembra que a verdadeira devoção mariana conduz ao compromisso histórico, não à fuga alienante.

A Anunciação, assim, desmonta toda fé transformada em produto. Maria não recebe garantias de sucesso, visibilidade ou recompensa. Recebe uma missão arriscada. Não há promessa de lucro, mas de encarnação. Não há marketing religioso, mas silêncio, escuta e serviço. Toda teologia que promete domínio, prosperidade ou imunidade ao sofrimento trai o coração do Evangelho. Maria não simboliza ascensão social, mas disponibilidade radical.

O anjo continua a visitar as periferias do mundo, as casas simples, os corações inquietos. Deus continua a nascer no escondido. A pergunta permanece aberta: ousamos responder como Maria? Dizer não ao mercado que nos reduz a consumidores, não ao individualismo que nos isola, não ao clericalismo que sufoca, não à fé transformada em espetáculo; e dizer sim ao Deus que chama à comunhão, à justiça, à ternura e à paz. O “faça-se” de Maria não pertence ao passado. Ele continua ecoando como possibilidade histórica. É esse sim, fecundo e corajoso, que ainda hoje pode transformar o mundo e coroar a humanidade com esperança

✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano

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