A palavra de Jesus em Mateus 5,43-48, proclamada na Liturgia do sábado da 1ª Semana da Quaresma e na terça-feira da 11ª Semana do Tempo Comum, desafia radicalmente a experiência humana. Ele diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Estao é uma convocação à transformação integral do coração e da ação, que transcende o instinto natural de autoproteção, o desejo de vingança e a lógica social do merecimento. O verbo grego agapate implica uma decisão deliberada de amar, uma ação ética e gratuita que não depende de reciprocidade. Este amor é distinto do afeto natural ou do carinho espontâneo; é um amor que busca o bem do outro, mesmo quando este nos prejudica ou nos odeia. Trata-se de uma participação concreta no próprio modo de amar de Deus, que se revela ao longo de toda a Escritura como “misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor” como proclama Êxodo 34,6.
Jesus falava a uma sociedade profundamente marcada por códigos de honra, retaliação e regras legais restritivas. O mandamento do olho por olho, dente por dente em Êxodo 21,24 e Levítico 24,20 limitava a violência desproporcional, mas ainda preservava a lógica da retribuição. No entanto, já no Antigo Testamento encontramos sementes de superação dessa lógica. Provérbios 20,22 aconselha: “Não digas: Vou pagar o mal; espera no Senhor, e ele te salvará”. Provérbios 24,17 recomenda: “Se teu inimigo cair, não te alegres”. Em Jó 31,29 o justo declara que nunca se alegrou com a desgraça de seu inimigo. O próprio livro dos Provérbios 25,21 ensina: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”, texto que Paulo retoma explicitamente em Romanos 12,20 ao exortar os cristãos a vencerem o mal com o bem.
O ensino de Jesus, portanto, não é ruptura com a revelação anterior, mas plenitude e radicalização. Ele não anula a Lei, mas a leva ao seu cumprimento, como já afirmara em Mateus 5,17. Amar o inimigo é o ápice da justiça superior à dos escribas e fariseus mencionada em Mateus 5,20. Trata-se de uma justiça que nasce do coração renovado, como prometido em Jeremias 31,33, quando Deus diz que escreverá sua lei no íntimo do ser humano. É também cumprimento da promessa de Ezequiel 36,26, na qual Deus promete dar um coração novo e um espírito novo ao seu povo.
O texto de Mateus enfatiza ações concretas: fazei o bem a quem vos odeia. O amor cristão é prático, histórico, verificável. Ele ecoa o mandamento maior já presente em Deuteronômio 6,5, amarás o Senhor teu Deus, e em Levítico 19,18, amarás o teu próximo como a ti mesmo. Jesus amplia o conceito de próximo, como já demonstrara na parábola do bom samaritano em Lucas 10,33, onde o estrangeiro e desprezado torna-se modelo de compaixão. O inimigo, portanto, entra no campo do amor. A lógica tribal é superada pela lógica do Reino.
Os símbolos do sol e da chuva em Mateus 5,45 revelam a universalidade da graça divina. O Salmo 145,9 afirma que o Senhor é bom para todos e sua misericórdia se estende sobre todas as suas obras. O Salmo 103 recorda que Deus não nos trata segundo nossos pecados nem nos retribui segundo nossas faltas. Lamentações 3,22-23 proclama que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã. A imagem da chuva recorda Deuteronômio 11,14, onde a chuva é bênção da fidelidade divina, e Isaías 55,10-11, onde a chuva que desce do céu simboliza a eficácia da Palavra de Deus que produz vida.
Quando Jesus ordena orar pelos perseguidores, ele aponta para sua própria prática. Na cruz, segundo Lucas 23,34, ele suplica: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Estêvão, em Atos 7,60, repete esse gesto ao pedir que o pecado de seus algozes não lhes seja imputado. Aqui vemos a tradição apostólica encarnando o mandamento do Mestre. Pedro, em 1Pedro 3,9, exorta a não pagar mal por mal, mas a abençoar. João, em 1João 4,20, declara que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê. O amor ao inimigo torna-se critério de autenticidade espiritual.
A compreensão deste ensinamento exige uma antropologia realista. Gênesis 4 apresenta Caim incapaz de dominar a violência que bate à porta de seu coração. O ser humano, marcado pelo pecado, tende à rivalidade e à vingança. No entanto, já em Gênesis 50,20, José, traído pelos irmãos, reconhece que Deus pode transformar o mal em bem. Esta é a lógica do Reino. Romanos 5,8 afirma que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Efésios 2,14 proclama que Cristo é nossa paz, aquele que derrubou o muro de separação e fez de dois povos um só. O amor aos inimigos não é idealismo ingênuo, mas participação na reconciliação cósmica inaugurada por Cristo.
No contexto contemporâneo, marcado por polarizações e discursos de ódio, a palavra de Jesus permanece provocativa. A sabedoria bíblica adverte contra a língua que fere. Provérbios 18,21 ensina que a morte e a vida estão no poder da língua. Tiago 3 compara a língua a um fogo capaz de incendiar florestas inteiras. Amar o inimigo implica também purificar a linguagem, romper com a violência simbólica, recusar a difamação e a mentira. Efésios 4,31-32 convida a afastar toda amargura e a ser bondoso e compassivo, perdoando como Deus nos perdoou em Cristo.
A perfeição mencionada em Mateus 5,48 não é perfeccionismo moral, mas plenitude do amor. O termo grego teleios indica maturidade, completude. Em Gênesis 17,1 Deus diz a Abraão: anda na minha presença e sê íntegro. A integridade bíblica é totalidade de coração. Colossenses 3,14 afirma que o amor é o vínculo da perfeição. A maturidade cristã consiste em amar como o Pai ama. Não se trata de sentimentalismo, mas de decisão constante pela misericórdia.
A cruz permanece o centro desta pedagogia. Isaías 53 descreve o servo sofredor que não abre a boca diante dos que o oprimem e que carrega as iniquidades de muitos. Filipenses 2,5-8 mostra Cristo que se esvazia e assume a condição de servo. Hebreus 12,2 exorta a contemplar Jesus que suportou a cruz desprezando a vergonha. O amor aos inimigos encontra aqui sua fonte e seu critério.
A Igreja, chamada a ser sinal e instrumento de unidade segundo Lumen Gentium, deve encarnar essa ética. Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja. Evangelii Gaudium recorda que a fé autêntica implica desejo de mudar o mundo. Fratelli Tutti insiste que ninguém se salva sozinho e que a fraternidade é caminho político e espiritual. Deus Caritas Est recorda que o amor é tarefa da comunidade inteira. O amor aos inimigos não é opção devocional, mas exigência estrutural do discipulado.
A crítica às espiritualidades centradas apenas no sucesso individual encontra base bíblica em Lucas 12,15, quando Jesus alerta contra toda ganância, e em Mateus 6,19-21, onde exorta a não acumular tesouros na terra. O Reino não é prosperidade egoísta, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo como afirma Romanos 14,17. Amar o inimigo rompe a idolatria do eu e desloca o centro para o outro.
O discípulo que vive Mateus 5,43-48 torna-se sinal escatológico. Ele antecipa o tempo anunciado em Isaías 2,4, quando as espadas se transformarão em arados. Ele participa da visão de Apocalipse 21, onde Deus enxuga toda lágrima e elimina a morte. Cada gesto concreto de perdão é semente desse futuro.
Diante dessa palavra, resta a pergunta que atravessa as Escrituras desde Miqueias 6,8: o que o Senhor pede de ti senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e caminhes humildemente com teu Deus. Amar o inimigo é caminho de cruz e ressurreição. É participar do mistério pascal. É deixar que o Espírito produza em nós o fruto descrito em Gálatas 5,22, amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.
Amar os inimigos é revolucionário: desafia meritocracia, lógica de poder e punição, polarização, discursos de ódio, exclusão social e religiosa. É educação ética, psicológica e espiritual, um caminho que transforma indivíduos, comunidades e sociedades. O Evangelho, proclamado na liturgia, é convite contínuo à conversão do coração, à vivência da misericórdia, à justiça restaurativa e à solidariedade com os marginalizados.
Assim, Mateus 5,43-48 não é conselho opcional, mas revelação do coração do Pai. É convite à conversão profunda, pessoal e comunitária. É chamado à maturidade espiritual e à responsabilidade histórica. É anúncio de que a última palavra não é o ódio, mas o amor que tudo suporta, tudo crê, tudo espera e tudo suporta, como proclama 1Coríntios 13,7. E é certeza de que, permanecendo no amor, permanecemos em Deus, como assegura 1João 4,16.
Oração
Senhor, ensina-nos a amar como Tu amas. Livra-nos da armadilha da indiferença e do ódio travestido de justiça. Que possamos viver o Evangelho com coragem profética, mesmo quando isso nos custar conforto, prestígio ou segurança. Que sejamos luz, sal e testemunho do Teu Reino, atuando na transformação do mundo pelo amor incondicional. Amém.
DNonato - Teólogo do cotidiano

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