Essa observação é fundamental para compreender o Sermão da Montanha. Mateus constrói cuidadosamente o caminho que conduz até essas palavras. Desde o início do Evangelho, Jesus é apresentado como o novo Moisés. Assim como Moisés foi ameaçado pelo faraó, Jesus é perseguido por Herodes ainda criança (Mt 2,13-18). Assim como Israel atravessou o deserto, Jesus é conduzido ao deserto e vence as tentações que haviam derrotado o povo antigo (Mt 4,1-11). Em seguida, inicia sua missão na Galileia (Mt 4,12-17), região frequentemente desprezada pelas elites religiosas de Jerusalém. Esse detalhe possui profundo significado teológico. Mateus mostra que a luz de Deus começa a brilhar precisamente nas periferias. Antes que os discípulos sejam chamados luz do mundo, Cristo é apresentado como a luz prometida pelos profetas. O evangelista cita Isaías: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz” (Mt 4,16; Is 9,1-2). A luz não nasce da capacidade humana. Ela é recebida daquele que é a verdadeira luz que ilumina todo ser humano (Jo 1,9).
Ao subir à montanha para ensinar (Mt 5,1), Jesus realiza um gesto carregado de significado bíblico. Nas Escrituras, as montanhas são lugares de encontro com Deus e de revelação:
- No Sinai, Moisés recebeu a Lei (Ex 19–20).
- No Carmelo, Elias enfrentou os falsos profetas (1Rs 18).
- No Horeb, Deus manifestou-se na brisa suave (1Rs 19,12).
O Sermão da Montanha começa com as Bem-aventuranças (Mt 5,3-12). Elas descrevem quem são os discípulos: pobres em espírito, mansos, misericordiosos, promotores da paz, famintos de justiça e perseverantes na perseguição. Em seguida, Jesus mostra para que eles existem. Não são chamados a refugiar-se do mundo, mas a servir ao mundo. Desde Abraão, a lógica da eleição divina é missionária: Deus chama para enviar, escolhe para servir e abençoa para que outros sejam abençoados (Gn 12,1-3). A espiritualidade bíblica jamais foi uma fuga da realidade. A fé autêntica conduz ao encontro da história concreta, dos dramas humanos, das alegrias e sofrimentos do povo. Por isso, as imagens escolhidas por Jesus possuem uma dimensão profundamente pública. O sal existe para os alimentos. A luz existe para os ambientes. Ambos cumprem sua missão em benefício dos outros. O sal possuía enorme riqueza no mundo antigo, era muito mais do que um simples tempero, o sal era um bem precioso. Servia para conservar alimentos, purificar, fortalecer alianças e integrar diversos ritos religiosos e até mesmo já foi usado como pagamento a palavra salario tem sua origem no prefixo sal e contexto bíblico:
- Levítico 2,13, Deus determina que todas as ofertas sejam apresentadas com sal.
- Números 18,19 aparece a expressão “aliança perpétua de sal”.
- 2 Crônicas 13,5 a relação entre Deus e seu povo é descrita como uma “aliança de sal”.
Na mentalidade semita, o sal simbolizava permanência, fidelidade, preservação e incorruptibilidade. Quando Jesus afirma que seus discípulos são o sal da terra, está dizendo que eles devem tornar visível a fidelidade de Deus em meio a uma humanidade frequentemente marcada pela injustiça, pela violência e pela corrupção das relações humanas. O discípulo é chamado a preservar aquilo que é verdadeiramente humano quando tudo parece caminhar para a degradação da dignidade, da solidariedade e da verdade.
A advertência de Jesus surge imediatamente: “Mas se o sal perder o sabor, com que lhe será restituído o sabor?” (Mt 5,13). A pergunta permanece inquietante. O problema não é apenas o mundo perder seus referenciais éticos. O problema é quando a própria comunidade de fé perde sua identidade e passa a reproduzir as mesmas lógicas de dominação, prestígio e interesses particulares que deveria questionar. Essa preocupação aproxima Jesus da grande tradição profética de Israel. Amós denunciou um culto desligado da justiça: “Corra antes o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Isaías condenou uma religiosidade incapaz de defender os vulneráveis: “Aprendei a fazer o bem. Procurai o direito. Corrigi o opressor” (Is 1,17). Miqueias resumiu a vontade divina em uma síntese admirável: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,8). Jesus situa-se nessa mesma tradição. Sua preocupação não é preservar instituições por si mesmas, mas manter viva a fidelidade ao projeto de Deus. O sal perde sua função quando a religião se acomoda ao poder, quando a fé é transformada em mercado, quando o Evangelho é reduzido a espetáculo ou quando a espiritualidade deixa de produzir misericórdia.
A Comunidade vive o enfrentamento para transmitir a fé e podem, em determinados momentos, preocupar-se mais com sua própria preservação do que com sua missão original. Quando isso acontece, o serviço é substituído pelo prestígio, o testemunho pelo poder e a missão pela autopreservação. Ser sal da terra significa resistir à deterioração ética da sociedade e, ao mesmo tempo, vigiar para que a própria comunidade cristã não perca sua capacidade de testemunhar o Reino. Significa conservar viva a memória da justiça em um mundo frequentemente seduzido pela acumulação, pela exclusão e pela violência. As civilizações de ontem ds hoje construíram e constroem sua identidade por meio de símbolos compartilhados, e o sal está entre os símbolos mais universais da experiência humana. Em diferentes culturas, ele representa aquilo que preserva relações, sustenta a convivência e dá sabor à existência. Nesse sentido, uma vida sem sentido torna-se uma vida sem sabor. Uma sociedade sem solidariedade torna-se uma sociedade sem sabor. Uma religião sem compaixão torna-se uma religião sem sabor. O Evangelho convida os discípulos a devolverem sabor à existência humana através da justiça, da fraternidade, da misericórdia e da esperança. Vivemos em uma época marcada por extraordinários avanços tecnológicos, mas também por profundas crises de sentido. Multiplicam-se as conexões digitais enquanto muitos experimentam crescente solidão. Expandem-se os recursos materiais enquanto aumentam a ansiedade, o esgotamento emocional e a sensação de vazio. Cresce a capacidade de comunicação e, paradoxalmente, diminui a qualidade dos vínculos humanos. Nesse contexto, o chamado de Jesus permanece atual. O discípulo é chamado a devolver sabor à vida coletiva, ajudando a reconstruir relações de confiança, laços de solidariedade e horizontes de esperança. O Evangelho não oferece uma fuga da realidade, mas uma forma profundamente humana de habitá-la.
É justamente a partir dessa perspectiva que a segunda imagem utilizada por Jesus adquire toda a sua força: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Se o sal fala da presença transformadora que atua discretamente na realidade, a luz fala da manifestação visível do Reino de Deus na história humana. A imagem da luz atravessa toda a Escritura e constitui um dos símbolos mais profundos da ação de Deus na história. A própria criação começa quando Deus pronuncia sua primeira palavra criadora: “Faça-se a luz” (Gn 1,3). Durante a caminhada do Êxodo, o povo é conduzido pela coluna luminosa que atravessa a noite do deserto (Ex 13,21), os Salmos celebram a Palavra divina como “lâmpada para os pés” e “luz para o caminho” (Sl 119,105), Isaías anuncia que o Servo do Senhor será constituído “luz das nações” (Is 49,6) e no Evangelho de João, Cristo é apresentado como a luz verdadeira que ilumina todo ser humano (Jo 1,9), e o próprio Jesus declara: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminhará nas trevas” (Jo 8,12).
Quando Jesus afirma aos discípulos: “Vós sois a luz do mundo”, está compartilhando com eles a sua própria missão. A Igreja não possui luz própria. Assim como a lua reflete a luz do sol, a comunidade cristã reflete a luz de Cristo. Sua missão não consiste em produzir uma luminosidade autônoma, mas em tornar visível a presença daquele que é a verdadeira luz. Essa observação possui profundas consequências espirituais e pastorais. Ao longo da história, comunidades cristãs foram frequentemente tentadas a buscar visibilidade sem testemunho, influência sem serviço e prestígio sem compromisso com o Evangelho. Contudo, a luz cristã não brilha pelo poder que acumula, mas pelo amor que oferece. Sua autoridade nasce da coerência. Sua credibilidade nasce do serviço. Sua força nasce da fidelidade.
Por isso Jesus acrescenta: “Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha, mas sobre o candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão na casa” (Mt 5,15). A imagem era facilmente compreendida pelos ouvintes do século I. Nas pequenas casas da Palestina, uma única lâmpada iluminava todo o ambiente. Escondê-la significaria anular sua finalidade. Da mesma forma, a fé cristã não foi dada para permanecer escondida. Embora possua uma dimensão pessoal e interior indispensável, ela também possui uma dimensão pública, social e comunitária. O Evangelho é chamado a iluminar as relações familiares, os ambientes de trabalho, a educação, a cultura, a economia, a política e todas as dimensões da convivência humana.
É nesse contexto que Jesus conclui: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16).
A expressão merece atenção. Jesus não afirma: “para que admirem vocês”. O centro não é o discípulo. O centro é Deus. As boas obras não existem para construir reputações religiosas nem para alimentar vaidades espirituais. O verdadeiro testemunho conduz as pessoas ao reconhecimento da ação divina. A exegese do texto revela um detalhe significativo. A expressão “boas obras” refere-se não apenas a ações moralmente corretas, mas a ações belas, nobres e capazes de revelar concretamente a presença de Deus na história. O discípulo evangeliza não somente pelo que diz, mas pela forma como vive.
Nesse ponto, Jesus retoma a grande tradição profética de Israel. O profeta não era apenas alguém que anunciava acontecimentos futuros. Era alguém que iluminava o presente com a luz de Deus e denunciava as trevas da injustiça e apontava caminhos de esperança. A comunidade cristã é chamada a exercer essa mesma missão profética no interior da sociedade. A luz do Evangelho torna-se visível quando os excluídos são acolhidos, quando a dignidade humana é defendida, quando os esquecidos são lembrados, quando a verdade prevalece sobre a mentira e quando a misericórdia vence a indiferença. A autenticidade da fé não é medida apenas pela intensidade das práticas religiosas, mas pela capacidade de produzir vida, justiça e compaixão.
Em linguagem contemporânea, Jesus alerta contra duas tentações permanentes.
- A primeira é a irrelevância: o sal que perde o sabor.
- A segunda é a invisibilidade: a luz escondida. Uma comunidade que deixa de servir ao mundo torna-se irrelevante. Uma comunidade que deixa de testemunhar torna-se invisível.
Ao contrário, quando os discípulos vivem as Bem-aventuranças, tornam-se naturalmente sal e luz. A mansidão, a misericórdia, a promoção da paz, a fome e sede de justiça e a solidariedade com os que sofrem produzem um testemunho que nenhuma estratégia de marketing religioso consegue substituir. O mundo contemporâneo não necessita apenas de discursos religiosos. Necessita de sinais concretos do Reino de Deus. Necessita de homens e mulheres cuja existência revele que outro modo de viver é possível. Pessoas que demonstrem, através de suas escolhas, que a fraternidade pode vencer o egoísmo, que a verdade pode resistir à mentira e que a esperança pode sobreviver mesmo em tempos difíceis.
A força dessas palavras torna-se ainda mais impressionante quando observamos quem estava ouvindo Jesus. Não eram governantes, sacerdotes influentes ou membros das elites econômicas. Eram pescadores, agricultores, mulheres simples, trabalhadores anônimos e pessoas frequentemente ignoradas pelos centros de poder. É justamente a elas que Jesus declara: “Vós sois o sal da terra” e “Vós sois a luz do mundo”.
Essa afirmação permanece profundamente revolucionária. Em uma sociedade que costuma medir o valor das pessoas pelo dinheiro, pela influência ou pela visibilidade, o Evangelho proclama que a verdadeira transformação da história frequentemente nasce dos pequenos gestos realizados por pessoas aparentemente comuns. Uma mãe que educa seus filhos na honestidade, um trabalhador que recusa a corrupção, um jovem que escolhe a verdade em vez da mentira, uma comunidade que acolhe os vulneráveis ou uma pessoa que permanece fiel à justiça mesmo quando isso lhe custa caro: tudo isso é luz brilhando no mundo.
O Reino de Deus cresce também através da fidelidade cotidiana, dos gestos silenciosos de amor e das pequenas sementes de esperança lançadas no solo da história. Deus continua agindo através de pessoas concretas, frágeis e limitadas, transformando a realidade a partir de dentro. Mas existe ainda uma dimensão fundamental desse texto que precisa ser aprofundada. Jesus não fala apenas a indivíduos isolados. Ele fala a uma comunidade inteira. O pronome utilizado é plural: “Vós sois”.
A missão é pessoal, mas nunca individualista. O testemunho cristão possui uma dimensão essencialmente comunitária. É justamente essa dimensão que nos conduz à reflexão sobre a vocação dos cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade.
A dimensão comunitária presente no “vós sois” de Jesus ajuda a compreender um aspecto fundamental da missão cristã que recebeu especial atenção na Igreja contemporânea: a vocação dos cristãos leigos e leigas. As palavras do Sermão da Montanha não foram dirigidas a um grupo restrito de especialistas da religião, mas a uma comunidade de discípulos formada por homens e mulheres inseridos na vida cotidiana, nas relações familiares, no trabalho e na convivência social. O chamado para ser sal da terra e luz do mundo pertence a todo o povo de Deus. Essa compreensão recebeu novo impulso com o Concílio Vaticano II. Ao refletir sobre a identidade da Igreja, os padres conciliares recordaram que todos os batizados participam da missão de Cristo. A evangelização não é responsabilidade exclusiva do clero ou da vida religiosa. Ela pertence a toda a Igreja.
A Constituição Dogmática Lumen Gentium ensina que os leigos participam da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo. Isso significa que sua presença no mundo não é um elemento secundário da vida eclesial. É parte constitutiva da própria missão da Igreja. Os ambientes da cultura, da educação, da política, da ciência, da economia, das artes, da comunicação social e da vida familiar não são espaços estranhos ao Evangelho. São lugares onde a luz de Cristo é chamada a brilhar.
No contexto brasileiro, essa visão recebeu uma formulação particularmente significativa através do Documento 105 aprovado em 2016 na 54ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, intitulado Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade: Sal da Terra e Luz do Mundo. Ao recorrer diretamente a Mateus 5,13-16, os bispos reafirmaram que a vocação laical encontra sua inspiração mais profunda nas palavras do próprio Jesus..O documento recorda que os leigos e leigas não são meros auxiliares ocasionais das atividades pastorais. São sujeitos eclesiais, discípulos missionários e protagonistas da evangelização. Sua missão ultrapassa os limites das estruturas internas da Igreja e alcança as realidades concretas onde a vida humana acontece. É ali que o sal deve preservar. É ali que a luz deve iluminar.
Essa compreensão possui raízes profundas na história do cristianismo. Desde os tempos apostólicos, a expansão do Evangelho ocorreu principalmente através de homens e mulheres comuns que testemunhavam sua fé no cotidiano. Famílias transformaram suas casas em espaços de acolhimento. Trabalhadores anunciaram Cristo em seus ambientes profissionais. Comerciantes levaram a Boa-Nova para novas cidades. Pais e mães transmitiram a fé às novas gerações. Muito antes da construção das grandes estruturas eclesiásticas, a Igreja crescia porque existiam discípulos que viviam como sal e luz nas realidades mais simples da vida. Essa dimensão continua atual. O Reino de Deus avança quando a vida cotidiana é iluminada pelo Evangelho. Avança quando a honestidade prevalece sobre a corrupção, quando a solidariedade vence a indiferença e quando a dignidade humana é defendida contra todas as formas de exclusão.
Ao mesmo tempo, essa missão não pode ser confundida com a busca de privilégios religiosos ou formas de dominação. Ao longo da história, sempre existiu a tentação de instrumentalizar a fé para justificar interesses particulares, legitimar exclusões ou sustentar projetos de poder. Jesus recusou esse caminho. Seu Reino não é construído pela imposição, mas pelo serviço. Não cresce pela força, mas pela verdade. Não se estabelece pela dominação, mas pelo amor.
Essa advertência continua atual. A luz do Evangelho não pertence a ideologias, nacionalismos ou projetos de poder. Ela pertence ao Reino de Deus. Sempre que a fé é utilizada para alimentar intolerâncias, justificar preconceitos ou negar a dignidade humana, corre-se o risco de obscurecer aquilo que deveria iluminar. Por outro lado, quando os cristãos se colocam ao lado dos que sofrem, quando defendem a vida, promovem a paz, acolhem os excluídos e trabalham pela justiça, tornam visível a presença de Cristo na história. O Reino manifesta-se quando os famintos são alimentados, os pobres são acolhidos, os esquecidos são lembrados e os feridos pela vida reencontram sua dignidade.
Por isso, a pergunta deixada por Mateus 5,13-16 não é apenas individual. É também comunitária e eclesial:
- Como nossas comunidades estão sendo sal da terra?
- Como estão sendo luz do mundo?
- Nossa presença torna a sociedade mais humana, mais fraterna e mais próxima do projeto de Deus?
A resposta passa necessariamente pela conversão. A palavra utilizada por Jesus é metanoia, termo grego que indica uma profunda mudança de mentalidade, de coração e de direção.
- Não basta ter sido luz em algum momento do passado.
- Não basta recordar tempos em que a comunidade cristã exerceu influência positiva na sociedade. Cada geração precisa redescobrir continuamente sua missão.
A história da Igreja revela essa tensão permanente entre fidelidade e acomodaçã e em muitos momentos, comunidades cristãs tornaram-se sinais luminosos de esperança. Fundaram escolas, hospitais, universidades, obras sociais e iniciativas de promoção humana. Defenderam os pobres, acolheram os marginalizados e anunciaram a dignidade da pessoa humana em contextos de violência e opressão. Em outros momentos, porém, também experimentaram crises provocadas pelo clericalismo, pela busca de privilégios, pela proximidade excessiva com o poder e pela incoerência entre o anúncio e a prática. O próprio Evangelho não esconde essa possibilidade. A advertência sobre o sal que perde o sabor e a luz que deixa de iluminar permanece sempre atual.
Por isso, quando refletimos sobre Mateus 5,13-16, não devemos perguntar apenas o que está errado na sociedade. Devemos perguntar também como está nosso testemunho?
- Uma comunidade que anuncia a fraternidade, mas cultiva divisões, enfraquece sua luz.
- Uma comunidade que fala de misericórdia, mas pratica exclusões, perde seu sabor.
- Uma comunidade que proclama a justiça, mas permanece indiferente ao sofrimento humano, obscurece o brilho do Evangelho.
Nesse sentido, o Sermão da Montanha permanece extraordinariamente atual. As Bem-aventuranças constituem o coração desse projeto de vida. O sal e a luz são suas consequências naturais.
- Quem vive a misericórdia torna-se luz.
- Quem promove a paz torna-se luz.
- Quem tem fome e sede de justiça torna-se luz.
- Quem permanece fiel ao amor mesmo em meio às dificuldades torna-se luz.
- Quem se recusa a reproduzir a lógica do ódio, da violência e da exclusão torna-se sal da terra.
O mundo contemporâneo continua necessitando dessa luminosidade. Há muita informação, mas nem sempre há sabedoria. Há muitos discursos, mas nem sempre há verdade. Existem avanços tecnológicos impressionantes, mas persistem a fome, a desigualdade, a violência e inúmeras formas de sofrimento. Diante dessa realidade, Jesus não pede aos seus discípulos que sejam famosos, poderosos ou influentes. Pede algo muito mais exigente: que sejam fiéis. Porque uma pequena quantidade de sal ainda pode transformar uma refeição inteira. E uma pequena chama ainda pode romper a escuridão de uma grande noite.
Essa esperança atravessa toda a história da salvação. Deus frequentemente escolhe aquilo que parece pequeno para realizar grandes transformações. Escolheu Abraão, um peregrino sem terra. Escolheu Moisés, um homem inseguro diante de sua missão. Escolheu Davi, o menor entre seus irmãos. Escolheu profetas vindos das periferias da sociedade. Escolheu pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo. O Reino de Deus continua crescendo dessa maneira: silenciosamente, discretamente, mas com uma força capaz de transformar a história.
Por isso, ninguém deve considerar insignificante sua contribuição. Uma palavra de esperança pode mudar uma vida, um gesto de solidariedade pode restaurar uma dignidade ferida., uma atitude de justiça pode inspirar uma comunidade inteira e uma presença acolhedora pode revelar a misericórdia de Deus.
O Evangelho não exige que cada discípulo resolva todos os problemas do mundo. Exige que seja fiel no lugar onde foi chamado a viver. Ao final desta reflexão, permanecem ecoando duas perguntas de Jesus:
- Se o sal perder o sabor, quem lhe devolverá o sabor?
- Se a luz for escondida, quem iluminará a casa?
O Evangelho responde não com teorias, mas com um chamado. Que cada discípulo redescubra sua vocação. Que cada comunidade reencontre sua missão. Que os cristãos leigos e leigas assumam cada vez mais sua responsabilidade missionária na Igreja e na sociedade. Que o povo de Deus continue sendo presença transformadora nos lugares onde a vida acontece. O mundo continua necessitando de sal que preserve a dignidade humana. Continua necessitando de luzes que apontem caminhos de justiça, compaixão e esperança. Continua necessitando de comunidades que testemunhem, por palavras e ações, que o Reino de Deus já está presente no meio de nós.
E toda vez que alguém escolhe amar em vez de odiar, servir em vez de dominar, construir em vez de destruir, reconciliar em vez de dividir, uma pequena luz se acende na história. E onde a luz de Cristo brilha, mesmo discretamente, as trevas jamais têm a última palavra.
"Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus" (Mt 5,16).
Prof. DNonato – Teólogo do cotidiano.


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