Desculpem sou brasileiro de verdade e não preciso de um mito (mito sei que não existe), pra ser quem sou.
Recebi a notícia de que algumas pessoas estão deixando de ir à Igreja por causa das minhas opiniões sobre política, que publico nas redes sociais, especialmente sobre a pessoa do atual Presidente da República. Essa informação me fez pensar que, antes de discutirmos política, precisamos perguntar o que realmente sustenta nossa fé. De verdade, quem deixa de participar da comunidade cristã por causa da opinião de outro ser humano talvez esteja fazendo um favor à própria Igreja, porque a fé não pode depender da concordância política entre as pessoas. Uma comunidade cristã não deveria ser um espaço onde todos pensam da mesma maneira, votam da mesma maneira ou enxergam a realidade pelas mesmas lentes. Ela deveria ser o lugar onde pessoas diferentes conseguem se encontrar diante do mesmo Cristo. Se o motivo da nossa presença é verdadeiramente Jesus, o Senhor que se fez Homem por amor à humanidade, nenhuma opinião política de um simples cristão deveria ser suficiente para nos afastar dele.
O Cristo apresentado pelos Evangelhos não viveu conformado com as estruturas de seu tempo. Nasceu em uma realidade marcada pela pobreza, pela dominação política, pela desigualdade e pela violência, aproximou-se dos que estavam à margem e não tratou o poder, a riqueza ou a posição social como sinais automáticos da bênção de Deus. Andava com pecadores, sentava-se à mesa com pessoas malvistas, tocava os considerados impuros e acolhia aqueles que a sociedade religiosa preferia manter à distância. Mas seu acolhimento nunca foi uma autorização para permanecer como estava. A misericórdia caminhava junto com o chamado à conversão. Por isso, ao mesmo tempo em que acolhia, dizia: “vai e não peques mais” (Jo 8,11).
Também é importante lembrar como terminou sua passagem pela terra. Jesus foi preso pela força policial da época, por motivos religiosos e políticos, foi torturado e executado pelo Estado. No seu tempo a a realidade dos interesses religiosos, políticos e sociais se encontraram e se uniam para fazer o malbe sua condenação foi legitimada em nome da ordem, da tradição e da preservação de um determinado sistema. Talvez seja justamente aí que esteja uma das provocações mais fortes para nós hoje.
- Se Jesus aparecesse em nossa sociedade denunciando injustiças, aproximando-se dos pobres, questionando privilégios e colocando a dignidade humana acima das conveniências do poder, como seria recebido?
Talvez alguns o chamassem de “esquerdopata”, subversivo, comunista ou alguém com ideias perigosas. Talvez outros perguntassem por que Ele não se limitava a cuidar da própria vida. E isso nos leva a uma pergunta ainda mais incômoda:
- Se encontrássemos Jesus hoje, reconheceríamos o Cristo dos Evangelhos ou tentaríamos transformá-lo em alguém parecido conosco?
É justamente por acreditar nesse Homem, que é Deus conosco, que não consigo separar minha fé da realidade concreta em que vivemos. Não acredito que o Evangelho possa ser reduzido a uma bandeira partidária, mas também não acredito que seguir Jesus signifique permanecer indiferente diante da injustiça. Minha opinião política não é o centro da minha fé, e muito menos pretendo apresentar minhas posições como verdades absolutas. Posso errar, posso rever conceitos e posso discordar de qualquer pessoa. O que não posso fazer, se quero levar o Evangelho a sério, é abandonar a responsabilidade de olhar para aqueles que sofrem.
Jesus acolheu os pecadores públicos, aproximou-se dos marginalizados e entregou a própria vida por uma humanidade que estava longe de ser perfeita. Ele continua sendo oferecido na Eucaristia não como prêmio para os que se consideram virtuosos, mas como graça e alimento para aqueles que reconhecem que precisam ser transformados. Por isso, quando alguém deixa de participar da Igreja simplesmente porque outra pessoa pensa politicamente diferente, talvez seja necessário olhar para aquilo que estamos colocando no centro da nossa existência.
- É Cristo que nos reúne ou a necessidade de convivermos somente com quem confirma nossas ideias?
- É o Evangelho que orienta nossas relações ou nossas preferências políticas passaram a ocupar um espaço que deveria pertencer somente a Deus?
- Mas o que realmente mudou em nossas vidas?
- O que mudou em nossas atitudes?
- Qual é a maior vitória que podemos apresentar diante do Deus que se faz Menino e qual é a nossa maior derrota?
- Depois de mais um ano, conseguimos nos tornar pessoas mais humanas, mais capazes de perdoar, mais sensíveis ao sofrimento dos outros e menos prisioneiras do orgulho ou apenas repetimos os mesmos comportamentos, os mesmos preconceitos e as mesmas divisões, enquanto colocamos uma decoração natalina sobre antigas feridas?
O Natal deveria nos colocar diante de nossas contradições. Não há nada de errado em reunir a família, viajar, celebrar, comer, beber ou presentear. O problema começa quando o consumo substitui o sentido da celebração e quando transformamos uma festa que deveria anunciar a proximidade de Deus em uma grande vitrine de desigualdades. Enquanto alguns podem gastar muito para celebrar, outros enfrentam o desemprego, a fome, a solidão, a falta de moradia, a violência e a ausência de perspectivas. Enquanto alguns discutem qual presente comprar, outros desejariam apenas ter uma refeição digna ou alguém com quem dividir a noite. Não precisamos deixar de celebrar, mas precisamos perguntar que humanidade estamos construindo enquanto celebramos. Talvez o verdadeiro desafio seja compreender que o nascimento de Cristo não deveria produzir apenas uma emoção passageira, mas uma mudança de atitude. O Deus que entra na história humana nos chama a entrar também na realidade do outro. Isso significa reconhecer nossos erros, buscar o perdão, oferecer perdão, abandonar o desejo de vingança e deixar de tratar como inimigo aquele que pensa diferente. Significa compreender que não podemos desejar paz no cartão de Natal enquanto alimentamos ódio durante o restante do ano. Não podemos falar de amor cristão e, ao mesmo tempo, desejar sofrimento para quem discordamos. Não podemos pedir a bênção de Deus enquanto recusamos qualquer responsabilidade diante da vida daqueles que sofrem.
É nesse ponto que a celebração cristã confronta nossa maneira de viver. Queremos o Natal, mas muitas vezes queremos apenas seus benefícios. Queremos a bênção, mas não queremos o compromisso; queremos o consolo, mas não queremos a conversão; queremos o Emanuel, Deus conosco, mas nem sempre queremos estar com aqueles que Deus coloca diante de nós.
Transformamos a celebração em uma justificativa comercial para consumir e colocamos nossos velhos vícios no lugar daquele que veio renovar nossa esperança. Queremos o Noel e deixamos o Emanuel em segundo plano. Queremos presentes, mas esquecemos presença. Queremos prosperidade, mas esquecemos solidariedade. Queremos receber, mas esquecemos que a fé também nos chama a repartir. Natal, portanto, não deveria ser apenas uma data no calendário, mas uma provocação à nossa humanidade. O Deus que os cristãos anunciam não permaneceu distante da história. Ele assumiu nossa condição, entrou na fragilidade humana e escolheu nascer sem os sinais tradicionais do poder. O Evangelho de Lucas não apresenta como sinal de sua chegada um palácio ou um trono, mas uma criança deitada em uma manjedoura. Essa imagem deveria ser suficiente para questionar nossa obsessão por status, poder, riqueza e superioridade. O Deus Menino se revela na fragilidade, e isso significa que qualquer espiritualidade que despreze os frágeis contradiz o próprio coração da mensagem que pretende anunciar.
Por isso, não me sinto “esquerdopata” nem culpado pelo afastamento da fé de quem se incomoda com minhas palavras quando denuncio estruturas que considero injustas ou quando falo daqueles que carregam os pesos mais pesados da sociedade. Também não considero minha opinião infalível. Sou apenas um cristão, sujeito aos mesmos erros e contradições de qualquer ser humano. Mas não acredito que a fé possa ser utilizada como uma justificativa para o silêncio diante do sofrimento. Os profetas fizeram suas denúncias em seu tempo, João Batista confrontou os poderosos, Jesus questionou a hipocrisia religiosa e muitos santos, ao longo da história, foram incompreendidos justamente porque não aceitaram transformar a religião em instrumento de acomodação. Talvez, portanto, a razão pela qual alguém se afasta da Igreja não esteja realmente na minha opinião publicada nas redes sociais. Talvez exista uma ferida mais profunda, uma decepção, uma dificuldade de conviver com quem pensa diferente ou simplesmente a incapacidade humana de reconhecer que também podemos estar errados. A tradição bíblica conhece muito bem essa tendência. Depois do pecado, Adão e Eva escondem-se de Deus e tentam deslocar a responsabilidade. O ser humano muitas vezes prefere esconder-se atrás de uma aparência de correção a reconhecer suas próprias fragilidades. Podemos vestir a roupa do “cidadão de bem”, construir uma imagem de pessoa irrepreensível e, ainda assim, carregar dentro de nós orgulho, preconceito, ressentimento e incapacidade de perdoar.
É por isso que acredito que a religião precisa ser muito mais do que uma experiência emocional. Uma oração que não transforma nossas relações corre o risco de permanecer apenas como emoção. Uma homilia que provoca lágrimas durante alguns minutos, mas não produz nenhuma mudança quando voltamos para casa, corre o risco de se tornar apenas uma descarga emocional. A fé cristã precisa alcançar a vida concreta. Precisa modificar a maneira como tratamos os pobres, os diferentes, os adversários, os que erram e até aqueles de quem não gostamos. Se nossa prática religiosa não consegue nos aproximar do Deus que se revela também no excluído, no desempregado, no perseguido, no doente, no abandonado e naquele que sofre, então precisamos ter coragem de perguntar se não estamos praticando uma religião que perdeu o centro do Evangelho.
O Natal aponta para algo muito maior do que uma celebração de calendário. O Menino da manjedoura crescerá, caminhará pelas estradas, entrará nas casas, sentará à mesa com pecadores, tocará os considerados impuros, acolherá os marginalizados, denunciará a hipocrisia religiosa, lavará os pés dos discípulos, enfrentará o poder e entregará a própria vida. A manjedoura já aponta para a cruz, e a cruz não será o fim, porque a esperança cristã aponta para a ressurreição. Celebrar o nascimento de Jesus é aceitar que Deus entrou na nossa história e que, a partir dessa presença, nossa própria maneira de viver precisa ser confrontada e transformada.
Hoje é Natal. E, apesar das nossas contradições, das nossas divisões, da nossa hipocrisia social e de tudo aquilo que ainda precisamos mudar, não quero terminar apenas com uma denúncia. Quero terminar com esperança. Parafraseando (PF) Paulo Freire, amar é um ato de coragem. Deixemos o ódio para os covardes. Que o Menino Deus encontre espaço não apenas em nossas casas, presépios, igrejas e discursos, mas também em nossas escolhas, relações e atitudes. Que Ele nos ensine a reconhecer nossos erros, pedir perdão, oferecer perdão, abandonar nossos preconceitos e compreender que pensar diferente não transforma automaticamente o outro em inimigo.
Que o Natal nos devolva a capacidade de olhar para o ser humano antes de enxergarmos sua posição política, sua condição social, sua religião ou qualquer outra diferença.
Hoje não é apenas um bom dia.
É um bom Natal. Que Deus nos ajude a fazer do nascimento de Cristo não apenas uma lembrança bonita, mas o começo de uma humanidade mais próxima do Evangelho e, portanto, mais próxima uns dos outros.
DNonato - Teólogo do Cotidiano
Não sou clérigo católico ou evangélico. Apenas um cristão, batizado.
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