A batina, antes de ser símbolo de distinção clerical, foi um traje comum. Nada de aura sagrada, nada de cetim, nada de alfaiataria de luxo. Nos primeiros séculos — especialmente entre os séculos IV e VI — o clero vestia as mesmas túnicas longas usadas no cotidiano do Império Romano. Com o tempo, à medida que a moda civil começou a encurtar e ajustar as roupas, o clero manteve o modelo antigo por sobriedade, e não por status. Assim nasceu a batina: não como marca de poder, mas como contracultura. Um testemunho de simplicidade.
Na Idade Média e, depois, com a força disciplinar do Concílio de Trento, a batina se tornou a veste própria do clero secular. Mas sempre com uma lógica clara: tecido simples, cor sóbria, custo acessível. Os grandes mestres espirituais — São Carlos Borromeu, Santo Afonso, Francisco de Sales, Inácio de Loyola — insistiam que o traje do ministro não deveria ser ornamento de vaidade, mas “memorial de Cristo servo”. E Cristo, vale lembrar, nunca pediu roupas distintivas aos seus discípulos: pediu cruz (Mt 16,24), pediu serviço (Jo 13,1-15), pediu mansidão de coração (Mt 11,29).
É por isso que causa perplexidade o fenômeno atual: batinas de três, quatro, cinco salários mínimos; tecidos importados; alfaiatarias especializadas; estética cuidadosamente calculada para redes sociais. Um símbolo que nasceu pobre tornou-se artigo de luxo. Como denunciou o Papa Francisco nos pede “o pastor deve ter cheiro das ovelhas" e não de loja elegante ousamos completar”. Quando custa caro ao bolso e barato ao coração, ela inverte o Evangelho”.
Há um ponto essencial na tradição cristã: quando o símbolo quer falar mais alto que o Evangelho, ele se corrompe. E quando a batina vira arma cultural, bandeira ideológica ou fetiche estético, ela deixa de ser sinal de consagração e se torna fantasia clerical.
Jesus nunca chamou ninguém pelo traje. Não disse “vinde a mim, vós que vestis preto”. Disse: “vinde a mim, vós que estais cansados e oprimidos” (Mt 11,28). Quando enviou seus discípulos em missão, não pediu túnicas impecáveis: pediu pobreza de meios (Mc 6,8-9). O problema não é a batina — é o coração que procura nela um atalho para prestígio.
E quando uma batina custa o equivalente a vários meses de salário de um trabalhador, ela deixa de ser símbolo pastoral. Torna-se artigo de luxo. E luxo é contradição frontal ao Evangelho. Isaías denuncia os que acumulam (Is 5,8). Miquéias critica os que fazem da aparência instrumento de opressão (Mq 2,1-2). Jesus adverte os que “gostam de andar com longas vestes e ser saudados nas praças” (Mc 12,38). É como se Ele falasse diretamente a esta geração, obcecada por fotografias clericais, filtros e poses sacralizadas.
A tradição nunca deixou dúvidas: a veste é sacramento quando o coração é humilde; quando o coração é vaidoso, a veste vira máscara. Nosso tempo não precisa de um “retorno à batina antiga”, mas de um retorno à alma antiga: a alma dos profetas que rasgavam o coração antes das vestes (Jl 2,13); a alma de Jesus, que veio “anunciar a Boa-Nova aos pobres” (Lc 4,18); a alma de uma Igreja que não se mede pelo figurino, mas pela justiça, pela misericórdia e pela verdade.
A batina recupera sua dignidade quando deixa de ser cenário e volta a ser sinal. Quando deixa o palco e retorna ao serviço. Quando perde os brilhos e recupera a alma. Quando não divide, mas aproxima. Quando não exalta o padre, mas lembra Cristo.
Se faz necessário uma observação às vezes a batina:
- Não é tradição — é nostalgia estilizada.
- Não é memória — é estética clerical.
- Não é identidade pastoral — é produção de imagem.
Afinal, não é a batina que faz o padre — é o Evangelho.
E o Evangelho custa tudo,
Mas não custa caro.
DNonato.

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